Dom Pedro Conti

O que estais procurando?

 

Um homem encontrou o seu vizinho ajoelhado e procurando alguma coisa no chão.
O que o senhor está procurando? – perguntou.
– Minha chave perdida – respondeu o vizinho. Então, puseram-se os dois, de joelhos, a procurar a chave. Depois de algum tempo, o homem perguntou:
– Onde foi que o senhor perdeu a chave?
– Na minha casa – respondeu o vizinho.
– Mas, santo Deus, porque a procura aqui?
– Porque aqui há mais luz. Foi a resposta.
Chegando ao Segundo Domingo do Tempo Comum, encontramos um trecho do evangelho de João. É uma página cheia de afirmações, perguntas e respostas, uma mais intrigante que a outra. Tudo começa com uma declaração de João Batista que, ao ver Jesus passar, diz: “Eis o Cordeiro de Deus”, palavras carregadas da lembrança de tantas profecias. Seguem duas perguntas. A primeira é do próprio Jesus para os dois discípulos de João que começaram a segui-lo: “O que estais procurando?” Por sua vez, os dois indagam: “Mestre onde moras?”. Em resposta Jesus os convida: “Vinde ver”. Eles foram e “permaneceram com ele”. Nenhum detalhe, nenhum endereço, só uma das ações “chave” na linguagem do evangelho de João: permanecer. Não é o lugar que vale, casa ou templo que seja, o importante é entrar na intimidade com Jesus, ao ponto de lembrar o horário do início daquela nova aventura: as quatro da tarde. As consequências são imediatas. André, um dos dois que tinham seguido Jesus vai atrás do seu irmão Simão para conduzi-lo ao Mestre e lhe diz: “Encontramos o Messias”, o Cristo, o Ungido, o Esperado. Por sua vez, Jesus olha bem para Simão e troca o nome dele. Será chamado Cefas, pedra. Um nome novo, como nas grandes vocações do Antigo Testamento.
Depois dos Tempos litúrgicos do Advento e do Natal, temos alguns domingos antes da Quaresma. Através das leituras, a Igreja quer nos ajudar a nos aproximar de Jesus para conhecê-lo melhor e, assim, decidirmo-nos a segui-lo de verdade. Na realidade, não somos nós a escolher Jesus, é ele que nos chama como Deus chamou, por exemplo, o profeta Samuel (primeira leitura). A iniciativa é sempre dele, também se, como vimos no evangelho, se serve de intermediários, neste caso João Batista e André. Jesus respeita a nossa liberdade, não quer ser o Mestre de quem nunca encontra tempo para estar junto com ele. Por isso, pergunta também a cada um de nós o que estamos procurando. Ele quer nos ajudar a descobrir e a reconhecer aquilo que mais nos interessa, aquilo para o qual estamos dispostos a gastar a nossa vida. É na “casa”, na convivência, na veracidade e espontaneidade das perguntas e respostas que conhecemos as pessoas. Sem a preocupação de cumprir papeis oficiais, sem aparências a serem preservadas, sem outros interesses que não sejam a verdade e o bem. O Mestre Jesus se deixa encontrar e reconhecer por quem o procura com coração limpo e livre. Quem quer fazer negócios, quem quer usá-lo para algum lucro ou vantagem própria, quem ainda não sabe o que procura na vida, pode ir atrás de outros mestres. Tem de sobra. Sempre terá muitos oferecendo felicidade, recompensas e prosperidade neste mundo ou no outro. Talvez falem de perdão, de fraternidade e de paz. Provavelmente ninguém falará de amar os inimigos, de fazer o bem aos perseguidores, de perdoar quem está crucificando um inocente, de construir unidade para que o mundo creia que somente ele, o Messias, pode anunciar a ressurreição e a vida plena. É possível começar a seguir a Jesus quando admitirmos que é ele mesmo que estamos procurando, quando temos fome e sede de justiça, quando não ficamos mais satisfeitos com as nossas conquistas individuais e nos sentimos chamados a servir a um projeto maior de vida, dignidade e respeito para todos. Hoje é fácil perder o entusiasmo da fé, a paciência da esperança, a energia do amor. Onde, como, quando perdemos tudo isso? Não será aproveitando de qualquer meia luz por aí que conseguiremos reencontrar o sentido grande da nossa curta existência humana. Não tenhamos medo de nos repetir uns aos outros: encontramos o Cristo e não queremos nunca mais perdê-lo.

 

A lebre e os cachorros

 

A corrida dos cachorros das mais diversas raças tinha acabado naquele momento. Todos estavam cansados, ofegantes e com a língua pendurada fora da boca. Quase não conseguiam falar. Mais uma vez, tinham feito o possível para pegar aquela lebre que corria na frente deles.

– A próxima vez teremos que nos esforçar mais – disse Branca, a única fêmea que tinha participado da corrida.

– Quase eu alcancei aquela maldita lebre,  reclamou Silver, um cachorro de pelo prateado.

– Um dia conseguiremos, somos os mais velozes do mundo – gritou Mel, um labrador cheio de boa vontade.

Nenhum deles sabia que corriam atrás de uma lebre de mentira. O falso animal era movido por um motor elétrico e controlado a distância para ficar sempre na frente dos cachorros.

 

O evangelho de Lucas deste Quinto Domingo do Tempo Comum nos fala de uma pesca extraordinária no lago de Genesaré e do chamado dos primeiros apóstolos para serem “pescadores de homens”. Tudo começa com o ensinamento de Jesus às multidões. O Mestre está sentado na barca de Simão e de lá fala ao povo que fica à margem do lago. Ao concluir o seu ensinamento, Jesus pede a Simão para sair com o barco para pescar. O experto pescador revela que já trabalharam a noite inteira e não conseguiram nada. – Mas, em atenção à tua palavra vou lançar as redes – diz Simão (Lc 5,5). O peixe foi tão abundante que quase as redes se rompiam. A reação de Simão Pedro e dos demais companheiros foi de espanto e de medo. Jesus os encoraja e os chama ao seu seguimento. Eles deixaram tudo para participar de uma “pescaria” muito diferente: juntar pessoas dispostas a confiar naquele homem que Simão já chamou de “Senhor” (Lc 5,8).

 

Podemos pensar que nada podia conquistar mais facilmente o coração daqueles pescadores do que uma pesca milagrosa. No entanto eles não ficaram por lá aproveitando da fartura. “Deixaram tudo” diz o evangelho. Algo novo devia ter chamado a atenção deles. Acredito que foi o ensinamento de Jesus. De fato, Simão Pedro declara confiar naquela palavra que se tornou quase uma ordem: “Avança para águas mais profundas” (Lc 5,4). Esse é um convite que Jesus sempre faz a todos nós. Não é algo reservado a alguns. Todos somos chamados a confiar mais sobre a sua palavra. Como Simão Pedro temos sempre muitas desculpas para não responder, porque estamos conscientes das nossas limitações e fraquezas. No entanto, é justamente dessa situação de acomodação e preguiça que o Senhor quer nos tirar. Podemos dizer também que estamos cansados como Simão e os demais que haviam trabalhado a noite inteira. No fundo, a questão é simples: confiamos demais nas nossas forças e capacidades e menos na sua palavra. Jesus quer e precisa, sim, da nossa participação – ele usa o barco e as redes de Simão – mas, antes de qualquer organização e iniciativa, a primeira das nossas ações é a prática da sua palavra. De outra forma, corremos o risco de dar demasiado valor ao resultado das nossas capacidades e esquecer o sentido daquilo que nos parece sucesso extraordinário. Vez por outra, ouvimos falar de “milagre econômico”. Todos os  dias aprendemos notícias de novas conquistas tecnológicas e escutamos que alguns conseguem multiplicar “milagrosamente” as suas já enormes fortunas. Dar ouvido à Palavra do Senhor, para nós cristãos, não significa desistir de usar a nossa inteligência e a nossa criatividade. Contudo devemos sempre nos perguntar se o que alcançamos é para o bem de todos ou somente de alguns, se a humanidade fica melhor, mais fraterna e solidária, ou se aumentamos as diferenças, as divisões e as disputas com as relativas brigas e invejas que vão juntas. A “ordem” de Jesus de avançar para águas mais profundas não é um convite para correr atrás de qualquer sonho ou ilusão por impossível que nos pareça, em busca talvez de um grande sucesso, mas passageiro. Ao contrário, é acreditar que ele será o primeiro a nos ajudar quando os nossos projetos serão mais de justiça, de paz e de partilha. O Reino de Deus que Jesus veio inaugurar não é como a lebre de mentira que serve para fazer correr os cachorros enlouquecidos. É o motivo da nossa fé e da nossa própria vida.

 

O problema

Certa vez, um pai passeava pelas ruas da cidade com os seus dois filhos. Eles estavam chorando e de cara fechada. Um conhecido, ao encontrá-los, perguntou:

– Qual é o problema com os dois meninos?

– É o mesmo problema do resto do mundo, respondeu o pai. Tenho três nozes e ambos querem duas.

No evangelho de Lucas, deste Sétimo Domingo do Tempo Comum, encontramos diversos ensinamentos de Jesus. Ele nos chama a uma verdadeira revolução em nossos relacionamentos humanos e… econômicos. Nos pede para amar os inimigos, fazer o bem àqueles que nos odeiam e falam mal de nós, de não pedir de volta o que nos foi tirado. Devemos abençoar aqueles que nos amaldiçoam e oferecer a outra face a quem já nos esbofeteou de um lado.

Jesus nos diz que amar somente aqueles que nos amam, fazer o bem a quem o faz para nós, emprestar dinheiro a quem temos certeza pagará a dívida, não tem nada de novo. Qualquer pessoa pode agir assim. Até os pecadores fazem negócios desse jeito. Afinal, é uma questão de troca de favores e prestações. Ninguém quer perder nada e, assim, vivemos na defensiva, sempre atentos para não sermos enganados. Jesus nos pede para agirmos de uma maneira diferente, mais corajosa, inesperada, capaz de surpreender.

Isso porque a referência dos “filhos do Altíssimo” não pode mais ser a esperteza do mundo, mas deve ser, nada menos, que a misericórdia de Deus. Ele é um Pai “bondoso também para com os ingratos e os maus” (Lc 6,35). Na manifestação das nossas opiniões a respeito dos outros não devemos julgar e nem condenar. Devemos usar de uma medida larga, abundante de compreensão e perdão, porque com a mesma medida serão também avaliadas as nossas ações.

Após ter escutado essas palavras de Jesus, somos tentados a pensar que ele foi um profeta visionário, que tinha muita imaginação e vivia fora da realidade. No entanto ele nos deu o exemplo quando perdoava os pecadores e, sobretudo, quando invocou a misericórdia do Pai para aqueles que o crucificavam. Talvez sejamos nós a não saber mais acreditar que algo diferente possa acontecer nesta sociedade, onde sobram disputas, violências e injustiças e faltam demais fraternidade, solidariedade e paz.

Continuamos a querer possuir mais, na ilusão de sermos mais felizes pelo poder ou os bens materiais que acumulamos. O chamado “bolo” das riquezas talvez continue crescendo, até quando o planeta Terra aguentar. Mas quando será partilhado de forma justa e respeitosa da dignidade de toda pessoa humana? Ainda no evangelho deste domingo, Jesus nos mostra o caminho. É a bem conhecida “regra de ouro”: “O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles” (Lc 6,31). Se queremos amor sincero, devemos também oferecer amor sem outra finalidade que o bem de quem dizemos amar.

Se tratamos mal o nosso próximo ou o excluímos com a nossa insensibilidade e indiferença, não podemos pretender atenção e ajuda quando precisarmos. Podemos esperar carinho se semeamos afeto e ternura. Quem não sabe renunciar nem a uma noz para alegrar o irmão e semear união, dificilmente encontrará um ombro para se apoiar na hora da privação.

 

 

A lebre e os cachorros

 

A corrida dos cachorros das mais diversas raças tinha acabado naquele momento. Todos estavam cansados, ofegantes e com a língua pendurada fora da boca. Quase não conseguiam falar. Mais uma vez, tinham feito o possível para pegar aquela lebre que corria na frente deles.

 

– A próxima vez teremos que nos esforçar mais – disse Branca, a única fêmea que tinha participado da corrida.

 

– Quase eu alcancei aquela maldita lebre,  reclamou Silver, um cachorro de pelo prateado.

 

– Um dia conseguiremos, somos os mais velozes do mundo – gritou Mel, um labrador cheio de boa vontade.

 

Nenhum deles sabia que corriam atrás de uma lebre de mentira. O falso animal era movido por um motor elétrico e controlado a distância para ficar sempre na frente dos cachorros.

 

O evangelho de Lucas deste Quinto Domingo do Tempo Comum nos fala de uma pesca extraordinária no lago de Genesaré e do chamado dos primeiros apóstolos para serem “pescadores de homens”. Tudo começa com o ensinamento de Jesus às multidões. O Mestre está sentado na barca de Simão e de lá fala ao povo que fica à margem do lago. Ao concluir o seu ensinamento, Jesus pede a Simão para sair com o barco para pescar. O experto pescador revela que já trabalharam a noite inteira e não conseguiram nada. – Mas, em atenção à tua palavra vou lançar as redes – diz Simão (Lc 5,5). O peixe foi tão abundante que quase as redes se rompiam. A reação de Simão Pedro e dos demais companheiros foi de espanto e de medo. Jesus os encoraja e os chama ao seu seguimento. Eles deixaram tudo para participar de uma “pescaria” muito diferente: juntar pessoas dispostas a confiar naquele homem que Simão já chamou de “Senhor” (Lc 5,8).

 

Podemos pensar que nada podia conquistar mais facilmente o coração daqueles pescadores do que uma pesca milagrosa. No entanto eles não ficaram por lá aproveitando da fartura. “Deixaram tudo” diz o evangelho. Algo novo devia ter chamado a atenção deles. Acredito que foi o ensinamento de Jesus. De fato, Simão Pedro declara confiar naquela palavra que se tornou quase uma ordem: “Avança para águas mais profundas” (Lc 5,4). Esse é um convite que Jesus sempre faz a todos nós. Não é algo reservado a alguns. Todos somos chamados a confiar mais sobre a sua palavra. Como Simão Pedro temos sempre muitas desculpas para não responder, porque estamos conscientes das nossas limitações e fraquezas. No entanto, é justamente dessa situação de acomodação e preguiça que o Senhor quer nos tirar. Podemos dizer também que estamos cansados como Simão e os demais que haviam trabalhado a noite inteira. No fundo, a questão é simples: confiamos demais nas nossas forças e capacidades e menos na sua palavra. Jesus quer e precisa, sim, da nossa participação – ele usa o barco e as redes de Simão – mas, antes de qualquer organização e iniciativa, a primeira das nossas ações é a prática da sua palavra. De outra forma, corremos o risco de dar demasiado valor ao resultado das nossas capacidades e esquecer o sentido daquilo que nos parece sucesso extraordinário. Vez por outra, ouvimos falar de “milagre econômico”. Todos os  dias aprendemos notícias de novas conquistas tecnológicas e escutamos que alguns conseguem multiplicar “milagrosamente” as suas já enormes fortunas. Dar ouvido à Palavra do Senhor, para nós cristãos, não significa desistir de usar a nossa inteligência e a nossa criatividade. Contudo devemos sempre nos perguntar se o que alcançamos é para o bem de todos ou somente de alguns, se a humanidade fica melhor, mais fraterna e solidária, ou se aumentamos as diferenças, as divisões e as disputas com as relativas brigas e invejas que vão juntas. A “ordem” de Jesus de avançar para águas mais profundas não é um convite para correr atrás de qualquer sonho ou ilusão por impossível que nos pareça, em busca talvez de um grande sucesso, mas passageiro. Ao contrário, é acreditar que ele será o primeiro a nos ajudar quando os nossos projetos serão mais de justiça, de paz e de partilha. O Reino de Deus que Jesus veio inaugurar não é como a lebre de mentira que serve para fazer correr os cachorros enlouquecidos. É o motivo da nossa fé e da nossa própria vida.

 

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Recursos

 

Um marido abandonou sua mulher deixando-a sem recursos para sobreviver. O juiz perguntou à senhora quais meios tinha para a sua subsistência.

– Para dizer a verdade tenho três meios, respondeu ela.

– Quais? – perguntou o juiz surpreendido pela resposta.

– As minhas mãos, a boa saúde e Deus,  disse corajosamente a senhora.

 

No Terceiro Domingo do Tempo Comum, iniciamos a leitura do evangelho de Lucas. Encontramos a abertura desse evangelho e as primeiras palavras de Jesus na sinagoga de Nazaré, a cidade onde se tinha criado (Lc 4,16). O evangelista Lucas reconhece que muitas pessoas já procuraram escrever sobre os acontecimentos que envolveram Jesus assim como foram transmitidos pelas testemunhas oculares e pelos “ministros da palavra”, ou seja, por aqueles que depois foram autorizados a contar os fatos. O evangelista diz indiretamente, também a nós, que podemos confiar na solidez dos seus ensinamentos (Lc 1,4). Do início do evangelho de Lucas, passamos, pois, diretamente ao quarto capítulo. Assim somos convidados a escutar as primeiras palavras de Jesus com as quais ele apresenta a finalidade para qual foi enviado. Depois de ter feito a leitura, Jesus aplica a si mesmo a profecia de Isaías e conclui com as palavras: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21). Aquela profecia falava do messias prometido e tão esperado. Seria alguém escolhido e cheio do Espírito do Senhor com a missão de anunciar a Boa-nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos e aos oprimidos, a recuperação da vista aos cegos e, enfim, abrir solenemente um “ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). Tamanha foi a surpresa dos que estavam na sinagoga que “todos tinham os olhos fixos nele”. É nesse momento que Lucas coloca um dos seu tantos “hoje” do seu evangelho. O hoje significa que a espera tinha acabado e que a profecia  começava a acontecer com Jesus ali presente. Devia ser um momento de grande alegria. No entanto, se continuarmos na leitura do evangelho, saberemos que logo Jesus foi expulso da sua própria cidade. Um sinal antecipado das dificuldades que ele encontrará na sua missão. Já, de longe, aparece a sombra da cruz.

 

Para que um anúncio de libertação seja uma boa notícia é necessária a consciência de algum tipo de escravidão ou dependência. Podemos pensar em prisões reais ou em situações que nos fazem sofrer e das quais não conseguimos sair. Olhando para a realidade do mundo, muitos experimentam na vida condições físicas ou psicológicas sub-humanas. Algo semelhante vale para as nossas cegueiras. Se acreditamos ter a chave para entender tudo com clareza, não estaremos preocupados em buscar a luz necessária para enxergar melhor. Pode ser, porém, que nunca tenhamos refletido sobre tudo isso. Não estamos na cadeia, nos locomovemos livremente, compramos e descartamos – consumimos afinal – à vontade. Temos na mão o “controle” da situação; o programa é bom, por que deveríamos mudar de canal? No entanto, Jesus diz que veio para nos libertar e anunciar um tempo diferente, de gratuidade, de bondade e paz. Será que precisamos sofrer para desejar uma existência melhor? Ou será que perdemos o sentido da solidariedade e acabamos nos fechando, quando podemos, em nosso comodismo e bem-estar? A humanidade fez grandes progressos: temos redes de comunicação extraordinárias, curamos doenças que antes eram fatais, alcançamos outros planetas. Mas também inventamos armas custosíssimas e cada vez mais sofisticadas, prontas para destruir inúmeras vezes o planeta ou capazes de acabar somente com a vida humana, poupando o resto. A nossa prisão continua sendo o orgulho de uma humanidade sem coração, a nossa cegueira é a indiferença que não nos faz mais ver as lágrimas de quem perde tudo numa guerra entre poderosos. O que falta para que aconteça a libertação que Jesus começou? Ele não resolveu tudo, porque não nos obriga a sermos irmãos se não o queremos. Ele nos pede para colaborar com ele, não nos abandonou, nos deu o exemplo. Sempre temos alguns recursos: as nossas mãos, a saúde, mas temos também Deus?

 

 

Só uma pequena queixa

 

Uma jovem esposa tinha só uma pequena queixa do seu marido. Dizia: ” Meu marido, quando fala de mim com os amigos, fala sempre bem, reconhece todas as minhas qualidades. Os amigos me contam as coisas maravilhosas que ele diz de mim. Mas eu não estou nem um pouco contente. Por que não diz as mesmas coisas diretamente para mim?”.

 

Um simples desencontro entre o casal para introduzir a página simbólica ou programática das bodas de Caná que encontramos no Segundo Domingo do Tempo Comum, tempo litúrgico que nos acompanhará até a Quarta-Feira de Cinzas. O próprio evangelho de João define a mudança da água em vinho como o “início dos sinais de Jesus” (Jo 2,11). Com isso, somos convidados a entender esse sinal e a nos preparar para os outros que virão depois. O casamento, entendido como aliança de amor entre o homem e a mulher, representou, muitas vezes, no Antigo Testamento os laços de fidelidade que deviam unir Deus ao povo escolhido de Israel. No sentido negativo, os profetas chamaram de traição e adultério aqueles momento da história nos quais o povo seguia falsos deuses. Podemos logo compreender que, com Jesus, Deus quer mais que renovar laços anteriores, ele quer realizar uma “nova aliança”, melhor do que a antiga. O mestre-sala reconhece que o vinho tirado das talhas de pedra cheias de água é melhor e mais abundante do que o servido anteriormente e que veio a faltar.  Agora os ritos antigos, representados pela água preparada pelas purificações, não servem mais. Usando as palavras da própria Liturgia, podemos dizer que começa a se realizar a promessa de uma “nova e eterna aliança” entre Deus Pai e um povo “novo” formado por aqueles que acreditarão no Filho e o seguirão como Mestre e Senhor. Essa “aliança” será selada pelo sangue de Jesus derramado na cruz. Para João, o evangelista-teólogo, essa será a hora da manifestação plena do amor de Deus com a humanidade. Nas bodas de Caná ainda não chegou essa hora, mas o vinho melhor antecipa o sinal eucarístico, deixado por Jesus como memorial da sua paixão, morte e ressurreição. Igualmente, a intervenção de Maria, a “mãe”, aqui chamada de “mulher”, e as suas palavras: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2,5) não somente abrem o caminho para que a água seja transformada no vinho melhor, mas nos convidam sempre à obediência. Com efeito, quando vivenciamos o mandamento do amor, que Jesus nos deixou, algo novo sempre acontece, a tristeza se transforma em alegria e a esperança toma o lugar do desânimo.

 

Somente o amor pode garantir que a festa da aliança entre Deus e o seu povo nunca acabe. O amor é fruto de muitas virtudes, precisa de fidelidade, perseverança, perdão e vontade de recomeçar. O lado fraco da aliança somos nós. Duvidamos e esquecemos do amor de Deus. Às vezes, o trocamos com algum ídolo deste mundo cheio de promessas e ilusões. O salmo 115 diz que os ídolos “…têm boca, mas não falam, têm olhos mas não veem… som nenhum sai de sua garganta (v. 4 -7). No entanto, hoje, com a inteligência artificial eles ganharam voz. São vozes conhecidas, familiares, cativantes. Agradam-nos, nos dizem o que gostamos de ouvir, atraem-nos e nos convencem. Brincadeira? De jeito nenhum. Numa Igreja – não digo onde – até a imagem (holograma) de Jesus conversa com os devotos que lhe fazem perguntas. Mas tudo isso não passa de um computador funcionando com a inteligência artificial. Para que a água da nossa fragilidade se torne em vinho da alegria e do entusiasmo da nossa fé, devemos continuar a fazer o que Jesus nos ensinou e como ele nos deu o exemplo. Nada de subterfúgios e atalhos. Amar alguém e fazer o bem nos deve custar, exige que saiamos do nosso comodismo para ir ao encontro do irmão necessitado, pede que façamos do amor fraterno o estilo da nossa vida. Pode ser que sejamos um pouco como aquele marido que falava bem da esposa aos outros, mas nunca dizia para ela que a amava e que era o maior presente da sua vida. Quando rezamos, dizemos a Jesus que o amamos e que estamos dispostos a fazer o que ele nos disser?

 

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40 Anos de Democracia

 

Tenho a sensação de que o tempo está passando por uma compressão nos últimos anos. Se fosse físico, fascinado como sou pelas partículas de altas energias, iria estudar este fenômeno que sinto. O tempo, como tenho dito, é uma criação do homem. Principalmente as datas redondas. Fui surpreendido quando verifiquei que, no dia 15 de janeiro, daqui a sete dias, completamos 40 anos da minha eleição com Tancredo Neves para a Presidência da República. Assim, encerramos o período dos governos militares, quando tivemos leis e procedimentos autoritários, o que para uns era uma ditadura e para outros, um regime de exceção, em que de quatro em quatro anos era eleito um general, por um Colégio Eleitoral composto de deputados e senadores. Durante esse tempo, estava em vigor o Ato Institucional nº 5, que suspendia os direitos individuais e civis possibilitando um regime autoritário de abandono da Democracia ─ em 1978, no governo Geisel, fui relator no Congresso da Emenda Constitucional nº 11 extinguindo o AI-5.

Naquele 15 de janeiro de 1985, Tancredo afirmava que a nossa eleição seria a última de uma reunião do Colégio Eleitoral. Depois, já como Presidente, enviei ao Congresso o projeto para a extinção desse sistema e a volta das eleições diretas para Presidente da República. Ao mesmo tempo já estava nas duas Casas do Parlamento a convocação da Assembleia Constituinte, que nos daria a Constituição de 1988, restabelecendo os direitos civis e individuais, criando em nível constitucional os direitos sociais. Voltava a Democracia, e agora vamos comemorar neste ano de 2025 a sua volta, há 40 anos.

A democracia, dizia Lincoln, é o regime do povo, para o povo e pelo povo. Já Churchill proclamava ser o pior regime criado pelos homens, mas não existir melhor. Outro dia, eu li uma declaração do Mujica, ex-presidente do Uruguai, de que a democracia era uma “porcaria”, mas, copiando Churchill, reconhecia não haver coisa melhor. E um grande filósofo austro-britânico, um epistemologista muito objetivo e realista, afirmava “ser um regime em que se podia, de forma pacífica, substituir um governo ruim”.

Para mim, a democracia tem como definição máxima ser o regime da Liberdade, com um poder criativo que assegura ao cidadão todos os seus direitos individuais. Sem liberdade não há dignidade humana. Quando era Presidente da República, logo que assumi, em 1985, assinei a Mensagem ao Congresso Nacional para exame da Adesão do Brasil à Convenção Americana de Direitos Humanos e aos Pactos das Nações Unidas sobre Direitos Civis e Políticos e sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais; depois, em novembro de 1989, assinei o decreto de promulgação da Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura, como disposto no Pacto de São José Costa Rica, para a garantia dos Direitos Humanos. Estas garantias só a liberdade pode assegurar.

Foi pela liberdade que, em 1985, com a minha eleição e de Tancredo, restauramos a Democracia no Brasil. Agora, a democracia não traz o milagre da solução dos problemas de um país, mas desperta um sentimento de que se deve resolvê-los de imediato. É a síndrome do JÁ. Ela vem desde Dom Pedro II: quando lhe perguntaram se queria a maioridade, ele respondeu: “Só se for JÁ”.

Essa foi a grande tarefa da nossa Transição Democrática. Administrar o “JÁ” da solução de todos os problemas. É que tudo devia ser resolvido imediatamente. Todos os problemas, inclusive os institucionais. Enfrentei 12 mil greves e com paciência, calma, tranquilidade e prudência pudemos trazer de volta a Democracia, a Liberdade e os Direitos Sociais. É por isso que o brasilianista Ronald M. Schneider escreveu que a Transição Democrática no Brasil foi a melhor de todas. Trouxe a Liberdade, a Democracia e não deixou hipotecas militares.

Eu creio na democracia. Sou seu devoto. Sempre lutei por ela. É o melhor regime porque é capaz de defender-se e vencer os que contra ela investem cometendo crimes, como ocorreu nos episódios de 8 de janeiro de 2023. Este é um alerta a todos os que pensam em abatê-la.

 

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O hóspede mais importante  

 

Certa noite, quando o Mahatma Ghandi estava em Pretória, na África do Sul, passou perto da casa de alguns amigos cristãos. Resolveu fazer-lhes uma visita. Quando entrou na casa daquela família, viu que estavam reunidos em oração. Todos ficaram alegres, deram as boas-vindas ao amigo e resolveram deixar a oração para outro momento. No entanto, Ghandi pediu que não parassem: ” Peço-lhes que continuem nas vossas orações. Aquele a quem vocês estão rezando é muito mais importante do que eu”.

 

Com a Solenidade da Epifania continuamos a viver o clima do Natal. Desta vez, são os Magos vindos do Oriente que nos conduzem ao encontro do Menino recém-nascido. Num estilo bem bíblico, ou seja, através de uma narração, o evangelista Mateus nos apresenta um grande anúncio: aquele que nasceu não será somente o “rei dos judeus” (Mt 2,2), será uma luz para todos os povos, para a humanidade inteira. Tudo contribui para essa boa notícia. Podemos começar pela estrela que guia os Magos. Ela representa o universo com a sua grandiosidade e o seu encanto. Contemplar as estrelas nos faz sentir pequenos e nos coloca na frente de algo ou de Alguém muito maior. Tudo já estava lá antes de nós e vai continuar depois que nós passarmos. A luz das estrelas, desde a antiguidade, serviu para orientar o caminho, sobretudo aos navegantes. Quando não conhecemos a estrada ou não sabemos para onde ir, somos como alguém que caminha no escuro, precisamos de uma luz para não nos perder. Tudo nos leva a pensar que os Magos, dos quais sabemos somente que vieram do Oriente, fossem astrólogos, ou seja, pessoas que interpretavam segundo os seus conhecimentos e as suas crenças a posição e os movimentos dos astros. Eles dizem ter visto aparecer uma estrela e somente o nascimento de um rei pode explicar isso. Querem saber onde encontrá-lo. O curioso da história é que os sumos sacerdotes e os mestres da Lei, convocados por Herodes, sabem onde devia nascer o Messias, mas não vão procurá-lo. Ficam perturbados com a notícia. É evidente que os Magos, que vieram de longe, estão mais interessados do que eles para encontrar o recém-nascido. Por fim, o evangelista Mateus nos apresenta a cena de um encontro que é de adoração e profecia. Os três presentes dos Magos são um reconhecimento àquele que será reconhecido como um rei manso e humilde. Ele revelará a presença misericordiosa de Deus na história humana e dará o exemplo do maior amor, porque entregará a sua própria vida na cruz. A página do evangelho da Epifania, está cheia de símbolos, memórias e cumprimento de promessas, é um anúncio de esperança para todos.

 

Foi numa casa que os Magos encontraram a criança com Maria sua mãe. Não foi no Templo e nem no palácio do rei. O que ela tinha de tão especial para a adorarem? Antes de responder que era o menino Jesus, vamos lembrar a profecia de Isaias 11,6-9: “o bezerro e o leão (inimigos por natureza) pastarão juntos, e um menino pequeno os guiará” (v.6). Aquela criança representa o que pode acontecer de realmente novo. Toda criança que nasce não é somente uma vida nova, é um novo projeto de pessoa, que poderá fazer algo inédito, surpreendente, talvez algo que antes parecia impossível. Toda criança tem tempo disponível à sua frente, poderá usar de forma nova a sua inteligência, a sua capacidade de amar, a sua criatividade e imaginação. Se não fosse assim, a humanidade estaria repetindo somente as coisas do passado e nunca teria inventado nada de novo. Cada criança é um potencial ainda desconhecido, é o maior sinal de esperança para uma humanidade cansada ou prisioneira nos seus velhos planos de poder, de ganância e, infelizmente, ainda de violência. O menino da profecia conduzirá juntos os inimigos, abrirá veredas de paz. Pode fazê-lo porque para ele tudo é novo, o caminho está totalmente aberto à sua frente. Nós cristãos acreditamos que se Deus se fez criança e assumiu a nossa humanidade foi para começar algo novo e nos envolver neste plano de renovação. “Adorar” Jesus é mais do que reconhecê-lo Messias e Senhor, é confiar nele e colocar em prática o que ele veio nos ensinar. Ele é sim o mais importante. É o novo horizonte.

 

“Peregrinos da esperança”

 

Estas palavras são o lema do Jubileu 2025 que iniciaremos em nossa Diocese no domingo 29 de dezembro de 2024. O começo oficial do Ano Santo já aconteceu em Roma no dia 24 de dezembro, quando o papa Francisco abriu a Porta Santa da Basílica de S. Pedro. Este tempo de graça será encerrado nas Dioceses do mundo inteiro no domingo 28 de dezembro de 2025 e, em Roma, no dia 6 de janeiro de 2026. O “lema” e as datas se encontram na Bula de Proclamação do Jubileu Ordinário de 2025 que também aponta o tema  do Ano Santo: “ Spes non confundit” – a esperança não engana – (Rm 5,5). O último Jubileu ordinário foi aquele do ano 2000, no início do novo milênio. Os Papas, no entanto, podem propor Anos Santos extraordinários. Assim foi com o Ano Santo da Redenção, entre 1983 e 1984 com o papa João Paulo II; o Ano Santo da Misericórdia entre 2015 e 2016 com o papa Francisco ou anos com assuntos específicos como o Ano da Fé de 2012 a 2013 iniciado com papa Bento XVI e concluído com papa Francisco, para celebrar os 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II.

 

Para os antigos hebreus, o Jubileu (chamado ano do yôbel, “do carneiro”, porque esta festividade era anunciada através do som de um chifre de carneiro) era um ano declarado Santo. Naquele tempo a lei mosaica prescrevia que a terra, da qual Deus era o único dono, fosse devolvida ao antigo proprietário e que os escravos tivessem de volta a liberdade. Podemos conferir isso nos textos bíblicos mais importantes: Lv 25,8-16.23-55 e Nm 36,4. Devia acontecer a cada 50 anos. Na era cristã, após o primeiro Jubileu do ano de 1300, a frequência da celebração foi fixada pelo papa Bonifácio VIII a cada 100 anos. Mais tarde com o papa Clemente VI o período foi reduzido para 50 e papa Paulo II fixou o prazo intermédio para 25 anos.

 

O Jubileu é constituído de gestos concretos. O mais evocativo é a abertura da Porta Santa. Os peregrinos dirigem-se à Porta e ajoelham-se em oração no seu limiar antes de atravessá-la. A passagem representa o compromisso de uma mudança, rumo a algo novo na própria vida de cristãos. Nas peregrinações a Roma, a outros lugares santos ou àqueles indicados propriamente a cada Jubileu, é possível fazer a experiência do caminho, do encontro com os companheiros da viagem. Além disso, a peregrinação é uma imagem da nossa vida; precisamos conhecer por onde andar e a meta para não vagar inutilmente. No Ano Jubilar deve ser oferecida a possibilidade de vivenciar melhor os sacramentos da Reconciliação, confessando e pedindo perdão dos nossos pecados, e da Eucaristia, alimento indispensável para uma corajosa renovação de vida. Lembramos também as obras de penitência e de caridade, como sinais concretos de justiça e solidariedade. Enfim, temos a “indulgência”; a conseguiremos por meio de algumas ações espirituais indicadas pelo Papa. Com ela poderemos libertar o nosso coração do peso do pecado e a certeza da misericórdia do Pai nos fará caminhar mais leves e decididos apesar das nossas fragilidades.

 

Na bula de proclamação do Jubileu 2025, papa Francisco aponta algumas situações ou grupos de pessoas que devem ser lembradas para que ações concretas em seu favor se tornem sinais de esperança para toda a humanidade. São elas: a urgência de trabalhar em prol da paz mundial, o desejo dos jovens de gerar novos filhos e filhas como fruto da fecundidade do amor, a oferta de resgate e liberdade para tantos presos, o cuidado amoroso com tantos doentes praticando as obras de misericórdia, a primorosa atenção aos jovens para que não percam a esperança e desistam dos seus sonhos de ver um dia uma sociedade mais justa e mais fraterna, a necessidade de mais acolhida e dignidade para os migrantes, sejam exilados, deslocados ou refugiados, o reconhecimento dos idosos como tesouros de experiência de vida e de sabedoria, a superação do escândalo dos pobres que sobrevivem às margens de uma sociedade indiferente.

 

Conseguiremos resolver tantas questões? A esperança é justamente a virtude de quem não tem prazo para parar, porque também se já sabe que não verá a plenitude dos resultados, porém está feliz porque acredita que pode preparar o caminho para algo novo e melhor para os que virão depois. O novo ano que começa será “santo” de verdade não por ser um ano jubilar, mas somente se nós todos viveremos com coragem a vocação à qual fomos chamados: à santidade. Sem nunca desistir porque somos “peregrinos de esperança”.

 

A caixa de papelão  

 

Nunes era um humilde motorista de caminhão. Para ele, a religião não tinha nenhuma importância e até discutia com aqueles que falassem sobre isso. Mas, para Deus, tudo tem a sua hora. Numa tarde, o nosso motorista viajava a grande velocidade quando, à certa distância, avistou, bem no meio da estrada, uma enorme caixa de papelão. Não teve dúvida. Brincalhão como era, decidiu passar a roda do pesado caminhão bem em cima da caixa. Firmou o volante. Contudo, quando estava próximo, num gesto contrário à sua vontade, desviou totalmente da caixa. A manobra foi tão violenta que chegou a sair fora da pista. Voltando ao asfalto continuou a sua viagem como se nada tivesse acontecido. Porém, após ter andado mais de um quilômetro, parou e começou a refletir: “Por que eu quis passar em cima da caixa e não o fiz? O caminhão saiu do asfalto e quase capotou. Não poderia outro motorista fazer o mesmo e sofrer um acidente? É melhor que eu volte e retire aquela caixa.” Nunes volta e quando se dirige para perto da caixa, a fim de apanhá-la, percebe que a caixa está andando. Levanta a caixa e vê que dentro dela estava uma criança brincando. Coloca a criança na cabine do caminhão. Atira a caixa no mato e, sem saber ainda por quê, começa a chorar. Entrega o menino aos pais. Ainda não sabe explicar como tudo aquilo aconteceu, mas agora acredita que Deus tem diversas maneiras para nos alcançar e manifestar o seu amor por nós.

 

Essa pequena história não chega a ser um conto de Natal, mas pode nos ajudar a pensar e a rezar nesses últimos dias antes do 25 de dezembro. Fala de alguém que pouco pensava em Deus, tinha outros interesses o motorista. De repente, aparece uma caixa de papelão. Como não pensar nos tantos pacotes grandes e pequenos dos presentes de Natal? Muitos deles são sinais sinceros de afeto; estão cheios de carinho e gratidão. Muitos outros são só uma obrigação, cumprem às formalidades de um costume de boa educação entre pessoas que, por exemplo, trabalham ou vivem juntas o ano inteiro. Que bom se esses pacotes estivessem cheios, ao menos, de sorrisos e apertos de mão, de desculpas pelas palavras ditas ou não ditas, de promessas para um novo tempo mais fraterno e harmonioso. A caixa de papelão da história, esconde uma criança, que, andando sem saber do perigo, foi parar no meio da pista. Como não pensar no Menino Jesus, o grande “presente” de Natal para todos nós? Assim acreditaram as duas mães, Maria e Isabel ao se encontrarem, apesar de ainda não poderem ver os rostos dos seus filhos.  A idosa, já no sexto mês de gravidez, e a jovem, ainda no começo daquela gestação, obra misteriosa do Espírito Santo, exultaram cheias de alegria como nos lembra o evangelho de Lucas, que ouviremos neste Quarto Domingo de Advento. Isabel proclama Maria “bem-aventurada”, porque acreditou e assim tornou possível o comprimento das promessas de Deus (Lc 1,45). Ter fé é, sem dúvida, um dom de Deus, mas nós não podemos deixar de pedir que ele a aumente e a confirme. Todos somos convidados a prestar mais atenção aos sinais do amor de Deus, a não desprezar as oportunidades que ele nos dá para abrirmos os nossos olhos e o nosso coração. Não precisa esperar algum evento extraordinário, porque Deus se serve das pessoas ao nosso redor para nos alcançar e quebrar o muro da nossa incredulidade.

 

Quantas mãos nos tiraram de situações perigosas, quantas nos conduziram pelos caminhos certos da vida, quantas enxugaram as nossas lágrimas e nos sustentaram nos momentos de fraqueza. Quantas mãos estendidas pediram a nossa ajuda para nos acordar da nossa indiferença. Quantas mãos se juntaram às nossas para rezar, agradecer, pedir a paz, o perdão e a reconciliação. Talvez nós teríamos passado por cima de tudo na corrida desenfreada atrás dos nossos interesses, fechados em nosso orgulho ou na busca exclusiva do nosso prazer. Se alguém nos ajudou a reavivar a mecha fumegante da nossa fé, porque não agradecer, por que não reconhecer o amor de Deus? Melhor ainda se formos nós a ajudar outros, porque acreditamos que encontrar Jesus no caminho da nossa vida, será sempre o maior presente de Deus para nós e para todos. E não só no Natal.