
Dom Pedro Conti
A semente rebelde
Certo dia, a discussão entre as sementes de uma árvore tornou-se mais acalorada. Era natural, pois colocava-se uma questão fundamental a todas: O que devo fazer? Os frutos estavam maduros e as sementes tinham que decidir sobre o próprio futuro. Uma semente dizia:
– Daqui não saio, estou tão bem aqui. Uma outra rebatia:
– Mas não percebes que se não saíres daqui e não caíres na terra, nunca serás uma árvore? Por fim, tomaram a decisão de se deixar cair por terra, perto da árvore a que pertenciam. Porém uma daquelas sementes recusou-se. Não aceitou cair no mesmo lugar. E dizia para si: “Por que eu deveria cair aqui onde o sabor do fruto ao qual pertenço já é conhecido? Prefiro cair num lugar onde o sabor não é conhecido; assim serei uma grande novidade”. Pensando dessa forma, esperou uma forte rajada de vento e lançou-se no ar, indo para além dos limites de onde nascera.
No evangelho de Lucas do Terceiro Domingo de Advento encontramos João, chamado “o Batista” porque batizava as pessoas nas águas do rio Jordão. O batismo de João era um gesto de conversão e penitência. As multidões o procuravam e perguntavam: “O que devemos fazer?” (Lc 3,10). O Batista tinha uma resposta para todos e para alguns grupos específicos. Ao povo em geral ele pedia que praticassem a partilha do necessário para todos: comida e roupa. Aos cobradores de impostos pedia que praticassem a justiça não cobrando mais do que o estabelecido. Enfim, aos soldados pedia que não se aproveitassem da força da armas para extorquir dinheiro e que não espalhassem o medo com falsas acusações. Era um tempo de grande expectativa e vendo toda aquela mobilização o próprio povo se perguntava se João não seria o messias tão aguardado. O Batista responde claramente que não era o messias. Explica que o batismo dele era de purificação e que devia chegar outro “mais forte” do que ele que batizaria “no Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). Com muita humildade João, o Batista, reconhece não ser digno nem de servir aquele que estava para chegar.
O evangelista Lucas aproxima bastante a pregação do Batista aos ensinamentos de Jesus e diz que o precursor “anunciava de muitos modos a Boa-Nova ao povo” (Lc 3,18). No entanto, não pode silenciar as diferenças entre os dois. Com efeito, João, o Batista, convida a todos a mudar de vida, mas, falando daquele que virá, o apresenta como alguém que julgará; ele separará o trigo da palha que será inexoravelmente queimada. Esse era o pensamento de João. Segundo ele e os seus seguidores, o messias esperado devia ser aquele juiz que puniria os errados e premiaria os justos. Mais tarde, Jesus usará palavras duras para desmascarar toda falta de amor ao próximo e denunciar a hipocrisia de certas pessoas aparentemente muito religiosas. Ele, porém, anunciou, em primeiro lugar, a misericórdia do Divino Pai e a possibilidade de resgate e de vida nova para os pecadores. Por isso, foi difícil acolher Jesus, porque foi um messias diferente daquele que estavam esperando: em lugar do poder e do castigo, o escândalo da cruz e o perdão.
Ainda hoje, muitos bons cristãos acham que a própria Igreja deveria ser menos tolerante e mais rigorosa, voltar a usar a ameaça da excomunhão e do inferno. Isso já aconteceu no passado, mas não foi esse o caminho que Jesus escolheu e praticou em sua vida terrena. Então, hoje vale tudo? Não, os pecados são sempre os mesmos, denunciá-los e corrigi-los é obrigação de todos. Mas antes precisamos começar conosco mesmo e apontar novos caminhos com o nosso exemplo e o nosso compromisso. Depois devemos usar sempre do remédio da misericórdia, porque a bondade e a aproximação fraterna conquistam mais que o desprezo e o afastamento. A chegada do Natal é sempre uma boa oportunidade para a reconciliação entre os irmãos que pararam de se falar, entre os grupos que se olham com raiva e desgosto. O amor é sempre novo e renova as nossas vidas. Peçamos, sem medo, uma rajada poderosa do vento do Divino Espírito Santo, para ir mais longe com o bem, como aquela semente que não queria repetir sempre o mesmo.
Aos poucos
Justino era um andarilho bastante conhecido pelo seu vigor físico e mental. Não bebia nada que tivesse álcool. Tinha um amigo de infância que, constantemente, se embriagava. Certo dia, procurou convencê-lo a libertar-se da escravidão do alcoolismo, enfatizando as vantagens e privilégios do seu sistema de vida e apontando os perigos a que o vício poderia conduzir o amigo. Impressionado com os argumentos de Justino, o seu amigo tomou uma decisão:
-Bem, vou abandonar as bebidas fortes, mas aos poucos! Justino, perplexo, retrucou:
– Se você fosse envolvido por um incêndio, será que pediria aos bombeiros para lhe salvar aos poucos?
No caminho do Advento deste ano, o Segundo Domingo é substituído pela Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, a “Nossa Senhora da Conceição” como é popularmente conhecida. Foi no dia 8 de dezembro de 1854 que o então Papa Pio IX proclamou Maria preservada, por Deus Pai, da mancha do pecado original “em vista dos méritos de Jesus Cristo”, preparando assim uma digna mãe para a encarnação do Filho. Só podemos nos alegrar e aprender com Maria a praticar, cada vez mais e melhor, a nossa fé em comunhão com a Tradição da Igreja, ou seja, com tantos cristãos e cristãs que nos precederam neste caminho e nos transmitiram aquilo que acreditamos. O evangelho proclamado nessa solenidade será, mais uma vez, a página bem conhecida da “anunciação”. Logo pensamos em Maria, mas, na realidade, a festa que celebramos no dia 25 de março é da “Anunciação do Senhor” que é feita à Nossa Senhora. A Maria é anunciada a concepção do filho ao qual porá o nome de Jesus. O anjo explica, entre outras coisas, que aquela criança será grande e chamado Filho do Altíssimo. Ela fica “perturbada” com a notícia e precisa ser encorajada pelo anjo a não ter medo. Tudo o que acontecerá será obra do poder de Deus para o qual “nada é impossível”. O sinal que vai ajudar a entender e a confiar é o sexto mês de gravidez da parenta Isabel, a idosa estéril. Todos conhecemos a resposta de Maria que sempre vale a pena deixar ecoar em nosso coração: “ Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38). O evangelista Lucas quer nos dar uma boa notícia: a encarnação do Filho de Deus. Ele faz isso do jeito bíblico, narrativo, e não simplesmente através de um comunicado, mais ou menos enfeitado, como poderia ser hoje uma mensagem, por exemplo, colocada nas redes sociais. Cabe, portanto, a nós percebermos o valor e o sentido do “anúncio” mais do que ficar preocupados com a forma da apresentação. O que deve nos interessar mais é a boa notícia – se completou o tempo previsto (Gl 4,4), o tempo da espera – e a adesão plena e humilde de Maria. Depois, daqui a poucos dias, no Natal, contemplaremos o nascimento de Jesus, o Menino-Deus.
Como cristãos, somos chamados a oferecer a nossa colaboração para que aquele evento, único na história, continue produzindo os seus frutos de salvação e libertação. A “encarnação” do Filho Unigênito é o compromisso do amor de Deus com a humanidade para que esta encontre o rumo certo no meio de tantos caminhos tortos, de brigas, guerras e confusões. Jesus não veio para complicar a nossa vida com listas de pecados ou para nos impor obrigações religiosas. Ele nos mostrou o que vale mais de tudo e que somente pode mudar a história da humanidade. O nosso “vício” é o egoísmo. Gastamos tantas energias querendo aproveitar e arrancar da vida o que mais podemos de bens, fama, sucesso, riquezas e prazeres. Ele nos ensinou a colocar à disposição dos outros, amigos ou não, os dons que recebemos e, não último, o grande bem do próprio planeta, a Casa Comum. Parece que só pensamos em ganhar. Se buscarmos isso, sempre ficaremos insatisfeitos. Sempre teremos inveja dos outros e disputaremos mais e mais até aqueles bens que são dádivas para todos. Jesus ensinou a doar e não a cobrar para receber. Maria, teve medo, perguntou, quis saber, mas depois que deu o seu “sim”, não voltou mais atrás, foi totalmente fiel. E nós? Bastará nos corrigirmos “aos poucos”? Como está o nosso “sim”?

O guarda-chuva
Chovia muito naquele dia. Dois homens, que viviam juntando coisas velhas descartadas, rodavam pela cidade, empurrando um carrinho de mão, em busca de algo jogado fora e que tivesse ainda algum valor. Numa lata de lixo, encontraram um guarda-chuva preto. Parecia novo. Sem acreditar muito, o pegaram para olhar. Um dos dois logo começou a reclamar:
– – Que pena, o cabo está quebrado. Não vamos ganhar nada. O outro, ao contrário, ficou feliz e disse:
– – Que sorte que temos. Encontramos um guarda-chuva no meio do lixo justo hoje com toda esta água. E assim os dois, um alegre e o outro triste, continuaram no seu caminho debaixo do guarda-chuva todo quebrado.
Estamos chegando ao final do Ano Litúrgico. Por isso, o evangelho de Marcos do 33º Domingo do Tempo Comum nos apresenta algumas palavras de Jesus sobre as “realidades últimas” e que parecem nos apresentar aquele que chamamos de “fim dos tempos”. Ele usa a linguagem “apocalíptica”, específica para esses assuntos e bastante difícil para a nossa compreensão. Aquelas expressões, apesar das imagens às vezes assustadoras, queriam transmitir esperança sobretudo em tempos difíceis, de provações e inseguranças. Era uma forma para dizer que, um dia, aqueles sofrimentos acabariam com a vitória do bem. Não muito mais do que isso. Nada de previsões do futuro ou ameaças de desastres. O próprio evangelho não marca nem o dia e nem a hora, porque não sabe, mas apresenta o evento mais importante de todos: a volta do Filho do Homem.
Esse revelar e esconder ao mesmo tempo, obriga-nos, simplesmente, a estar sempre prontos e acordados. Se quisermos estar preparados para esse momento, devemos prestar atenção aos sinais. Este é o sentido da parábola da figueira: “quando os ramos ficam verdes e as folhas começam a brotar” (Mc 13,28) é sinal que o verão está para chegar. Sinais nunca vão faltar, mas a dificuldade sempre será interpreta-los. O que pode ser um sinal positivo para alguns, pode ser negativo para outros. O discernimento é dom do Espírito Santo! No caso das palavras de Jesus, no evangelho deste domingo, o sinal é sem dúvida confortante: a figueira vai florescer e produzir logo os seus frutos doces e gostosos. Como dizer que não devemos aguardar a volta do Senhor prestando atenção primeiramente aos desastres naturais ou à destruição causada pelos homens com a exploração, poluição e exaustão dos recursos naturais e as consequências de guerras deflagradas com armas, cada vez mais, destruidoras. O Senhor Jesus não virá no meio de sinais de morte, mas de vida, de luz e esperança. A quem fala do próximo fim do planeta e da própria humanidade, nós, cristãos, só podemos responder nos comprometendo sempre e de novo com a fraternidade, a solidariedade, a colaboração de todos para um mundo de paz e de alegria. Somos convidados a ver, mas sobretudo, a ser sinais do bem que vence o mal. Muitas vezes são gestos pequenos, escondidos. Isso porque cada ser humano, em qualquer lugar ou situação que esteja, é chamado a mudar o seu coração de pedra em um coração de carne, apaixonado pela vida, pela vontade de estarmos juntos, de partilhar os benditos frutos da terra e da inteligência humana.
Papa Francisco, em sua mensagem para o 8º Dia Mundial dos Pobres, que celebramos neste domingo, lembra-nos que “os pobres têm um lugar privilegiado no coração de Deus”. Eles não têm outros recursos a não ser a própria coragem e a confiança de serem ouvidos em suas preces. Além disso, o Papa nos diz que “os pobres têm ainda muito para nos ensinar, porque numa cultura que colocou a riqueza em primeiro lugar e que sacrifica muitas vezes a dignidade das pessoas no altar dos bens materiais, eles remam contra a corrente, tornando claro que o essencial da vida é outra coisa”. Devemos, portanto, ajudar concretamente os pobres e aprender com eles a sermos mais sóbrios e humildes, promovendo uma vida sem os desperdícios de um consumo desenfreado e os gastos absurdos em armas de morte em lugar de construir obras de vida. Até um guarda-chuva quebrado é sinal de alegria para quem tem um coração simples e desapegado.
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Pode sempre doar alguma coisa
Um homem se considerava o mais pobre da terra. Um dia, encontrou outro na mesma situação e lhe disse:
– Eu me achava ser o mais pobre de todos, mas agora encontrei você que não tem nem chapéu. O outro respondeu:
– Amigo, lembre-se que todo pobre no seu caminho encontrará sempre alguém mais pobre do que ele! Essa é a sua única consolação, porque poderá sempre doar alguma coisa. Então, o homem tirou o chapéu e o doou ao outro. Depois, continuou o seu caminho. Encontrou mais um pobre que não tinha nem capa. Logo tirou a sua capa e a deu a para ele. Continuou a caminhar e, aos poucos, ia se desfazendo de alguma pobre coisa que tinha. Ficou somente com os sapatos e estava contente, porque assim podia ainda caminhar. Por fim, doou também os sapatos e viu que não possuía mais nada. Tinha chegado ao paraíso.
As leituras do Primeiro Livro dos Reis e do evangelho de Marcos do 32º Domingo do Tempo Comum nos falam de duas viúvas muito pobres. Naquele tempo, elas eram reconhecíveis pelo traje. A viúva de Sarepta, à qual o profeta Elias pede que lhe traga um pouco de água e um pedaço de pão, não se recusa a fazer isso com o último punhado de farinha que tinha e depois morrer, ela e o filho. Em resposta à tamanha generosidade, o profeta lhe garante, em nome do Deus de Israel, que, por todo o tempo da carestia, na casa dela não acabará nem a farinha na vasilha e nem o azeite na jarra. No evangelho, Jesus exorta a “grande multidão” a tomar cuidado com os doutores da Lei. Eles chamam atenção pela roupa, pelos primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes, mas depois “devoram as casas das viúva, fingindo fazer longas orações”. Mais tarde, Jesus está sentado no Templo “diante do cofre das esmolas” e fica observando. Os ricos atraem os olhares do povo, porque depositam grandes quantias de moedas no cofre. Com certeza eles demoravam propositalmente e todos escutavam o soar das moedas caindo. No entanto, Jesus declara que uma pobre viúva, que somente depositou “duas pequenas moedas que não valiam quase nada”, na realidade, foi a que mais doou, porque não entregou as sobras, mas “tudo o que possuía para viver”.
Elogiando a generosidade da viúva, na prática, Jesus continua o ensinamento anterior: não devemos nos deixar enganar pelas aparências. A verdadeira bondade do coração não se mede pelas aparências – a quantia de dinheiro ou as longas orações – mas por aquilo que custou de sacrifício ou pela honestidade de vida. Podemos enganar as multidões, mas não o Pai “que vê o que está em segredo” (Mt 6,6).
Cuidar do nosso asseio, é sinal de educação, de bom gosto, de amor a nós mesmos, porque zelamos pela limpeza e pela ordem. Até da nossa saúde, podemos dizer. Mas tudo tem limite. Quando a nossa principal preocupação é o julgamento dos outros, significa que talvez estejamos construindo uma imagem de nós mesmos que queremos seja reconhecida e elogiada, também se não corresponde à verdade da nossa fé, dos nossos sentimentos e motivações. Querer ser duas ou mais pessoas, ao mesmo tempo, é uma doença. O pior acontece quando, de tanto fingir ou representar, não sabemos mais quem somos de verdade. Jesus repreende aqueles ricos que queriam aparecer generosos quando, na realidade, estavam dando das sobras dos seus bens, ou seja, tudo aquilo não ia lhe fazer falta alguma. Muito diferente é a situação da viúva que estava dando tudo o que tinha para viver. Para ela, aquele pouco, era tudo. Com isso, o evangelista Marcos, chegando ao final do seu escrito, prepara-nos a reconhecer onde pode nos levar o amor: a doar “tudo”, até a própria vida como fez Jesus. A verdadeira doação não depende da quantidade, mas daquilo que nos custa doar. Sem pensar no que podemos ganhar com aquele gesto, nos aplausos ou reconhecimentos – aliás, melhor se não tivermos nada disso – mas só na alegria de vencer o nosso egoísmo e fazer felizes ao menos alguns dos nossos irmãos e irmãs. Ninguém é tão pobre que não tenha algo para doar. O pouco vale muito, se nos “custa” amor, carinho, atenção. São pequenos sinais da alegria do paraíso.
Ajudai-me colega
O santo Cura d’Ars recebera de um colega uma carta que começava assim: “Sr. Vigário, quando se sabe tão pouco a teologia, como é o seu caso, nunca se deve entrar no confessionário”. O Santo, que nunca achava tempo bastante para responder às inúmeras cartas que recebia, a esta respondeu imediatamente: “Quanta razão tenho de amar-vos, meu caríssimo e reverendíssimo colega! Vós sois o único que me conhece. Já que sois tão bom e caridoso, interessando-vos pela minha pobre alma, ajudai-me a obter a graça, que peço sempre, de ser substituído no cargo, de que sou indigno pela minha ignorância, a fim de retirar-me a um canto e chorar a minha pobre vida…”. Confundido com tamanha humildade, o autor da insolente carta correu a pedir desculpas ao Santo.
No início do mês de novembro, lembramos com saudade os nossos irmãos e irmãs falecidos e celebramos a solenidade de Todos os Santos. Na visita aos cemitérios, refletimos sobre o tempo que passa e a necessidade de dar um sentido menos superficial, talvez, à nossa vida. Repensamos os nossos relacionamentos, o valor que damos a Deus, as pessoas e os bens materiais. No domingo da festa de Todos os Santos, a Igreja nos aponta aqueles cristãos e cristãs que encontraram a verdadeira felicidade, porque tomaram a sério o evangelho das Bem-Aventuranças. Eles e elas, de tantas formas e por tantos caminhos, colaboraram com a construção do Reino de Deus e, acreditamos, merecem participar da glória do céu. Por ter ouvido tantas histórias de santos e santas famosos, pensamos que a santidade seja algo absolutamente heroico e, por isso, somente para poucos. No entanto, todos nós cristãos, somos chamados a buscar e praticar, conforme as nossas possibilidades, a santidade. As palavras com as quais a Liturgia apresenta os santos e as santas podem nos ajudar a entender. Na segunda Oração Eucarística rezamos: ”Lembrai-vos ó Pai…e dai-nos participar da vida eterna com a Virgem Maria, São José…os apóstolos e todos os santos que viveram na vossa amizade”. Aprendemos assim que os santos e as santas foram, são e serão os “amigos” de Deus e, por consequência, amigos também dos homens porque, como ensina João em sua Primeira Carta “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’ mas odeia o seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama a seu irmão que vê, não poderá amar a Deus que não vê (4,20).
Apesar das nossas dificuldades, todos desejamos ter amigos, ou seja, pessoas nas quais podemos confiar e que possam nos socorrer na hora da necessidade. Por isso, talvez, escolhamos a dedo as nossas amizades por interesse ou para ter alguma vantagem. A questão, porém, não é “ter” amigos, mas “ser” amigos, sermos, nós mesmos, pessoas com as quais os outros possam contar e sempre prontas para ajudar. Quando Jesus quis falar de um amor “muito grande” disse que “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Por isso, podemos dizer, sem medo, que ele, Jesus, se oferece para ser o nosso “maior” amigo, ao menos se acreditarmos que ele gastou realmente toda a sua existência terrena fazendo o bem, acolhendo, consolando e curando aqueles que sofriam de tantas formas de pobreza e enfermidade. Ele nada pedia em troca pelas curas e a quem perdoava os pecados simplesmente exortava a não pecar mais. Com isso, ensina-nos que a doença mais perigosa, que acaba com nossas vidas, acontece quando nos afastamos de Deus e dos irmãos, quando nos fechamos em nós mesmos e, afinal, não amamos ninguém. Quantos homens e mulheres foram e, ainda hoje, são verdadeiros santos e santas, também se nunca ficaram conhecidos. De fato, os santos e as santas “famosos” nunca buscaram a santidade para serem honrados neste mundo, se fosse assim já teriam recebido a sua recompensa (Mt 6,2). Simplesmente, amaram, praticaram o bem, doaram as suas vidas para outros serem felizes ou sofrerem menos e, sobretudo, não sozinhos e abandonados. Afinal, somos todos “colegas” de caminhada, por que não nos ajudamos mais para sermos todos santos e santas? Com humildade, sem inveja, sem disputas. O mundo precisa de uma grande corrente de alegre santidade. Hoje é a nossa vez.

A cicatriz
Certa tarde, uma criança saiu com o pai para passear pelas ruas da cidade. De repente, passou um senhor bem forte. Parecia um barril e tinha dificuldade para caminhar. Vendo isso, a criança riu tolamente e disse ao pai:
– O senhor viu como é engraçado aquele homem. É tão gordo que nem consegue caminhar.
O pai não gostou das palavras do filho. Porém ficou um instante calado e depois disse:
– Sabe, eu nem reparei. Olhei no rosto dele e vi que estava sorrindo. Depois de mais um tempo de silêncio, o pai continuou:
– Quando você encontra uma pessoa, não deve parar no seu aspecto físico. Olha no rosto dela: lá poderia encontrar um presente para você.
Mais tarde, voltando para casa, cruzaram novamente com aquele senhor. Desta vez, a criança levantou o olhar e viu que o homem tinha uma cicatriz no rosto na altura de um dos olhos. Entendeu logo que não podia enxergar bem. Quando lhe desejou “boa tarde”, o homem, em resposta, sorriu-lhe com tanta alegria e gratidão que a luz daquele sorriso, por um instante, fez desaparecer a horrível cicatriz.
O evangelho de Marcos do 30º Domingo do Tempo Comum nos apresenta a cura de Bartimeu, um mendigo cego que não se conforma com a sua cegueira e grita a Jesus para que lhe dê a vista. É uma página exemplar e o evangelista Marcos cuidou de muitos detalhes que precisamos reconhecer. Bartimeu não enxerga nada e está sentado no chão à beira do caminho, mas ele está atento, escuta muito bem e percebe a passagem de Jesus. Imediatamente, ele chama a atenção de todos gritando o nome de Jesus acompanhando-o com um título real “Filho de Davi” e pedindo piedade. Não sabemos se foi esse título messiânico ou os gritos do cego que incomodaram os muitos que “o repreendiam para que se calasse”. No entanto, Bartimeu continua gritando, manifesta, assim, a grande esperança que ele tem naquele homem que, para os outros, é simplesmente alguém que vem de Nazaré. Jesus percebe tudo isso e manda chamar o cego. Os enviados dizem para ele: “Coragem, levanta-te, Jesus te chama!”. São palavras cheias de sentido. Quem é chamado por Jesus deve ter a coragem de responder e estar disposto a mudar algo da sua vida. Bartimeu atende imediatamente. Levanta-se dando um pulo e ainda joga o manto – talvez a capa com a qual se defendia do frio – que representa, porém, nesse caso, a sua situação anterior, quase uma segurança ou acomodação da qual ele, agora, se desfaz. À pergunta de Jesus: “O que queres que eu te faça?”, Bartimeu não titubeia, responde: “Mestre, que eu veja!”. De novo, o mendigo manifesta a sua confiança total e escuta palavras reveladoras: foi a fé dele em Jesus que o curou. Final do episódio: Bartimeu recupera a vista e não vai mais ficar parado, porque é um homem “novo”, livre da doença, por isso “segue” Jesus “pelo caminho”.
Nos atos dos Apóstolos, a vida cristã dos seguidores de Jesus é chamada de “Caminho” (At 9,2). A mensagem dessa cura é clara, sobretudo se lembrarmos que o evangelho de Marcos quer ajudar todos aqueles que escutam falar de Jesus a tomar a decisão de acreditar nele para o invocar, ser libertos das amarras que os prendem e segui-lo como cristãos conscientes e felizes. Bartimeu representa, portanto, todos aqueles e aquelas que querem encontrar Jesus, que não se satisfazem com uma fé morna, sem força, sem a coragem de gritar e de se levantar. Os que querem fechar a boca de Bartimeu lembram aqueles que, aparentemente, estão na multidão que segue Jesus, mas não fazem nada para mudar as situações de exclusão e de sofrimento de tantos irmãos que sobrevivem às margem da sociedade. No fundo, não acreditam que a fé e o amor possam mudar profundamente as pessoas. Há também os intermediários, aqueles que emprestam a sua voz a Jesus para que ele possa continuar a chamar, são aqueles e aquelas que sabem despertar vocações e ajudam a encontrar a coragem da resposta. Todos devemos aprender a olhar melhor as pessoas, mais ainda se elas se apresentam desfiguradas pelas lutas da vida. Nelas precisamos reconhecer Jesus. Todo gesto de amor dado e recebido, por pequeno que seja, é sempre belo e luminoso.
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O leão e o ratinho
Ao sair do buraco, viu-se um ratinho entre as patas do leão. Estacou, de pelos em pé, paralisado pelo terror. O leão, porém, não lhe fez mal nenhum.
– Segue em paz, ratinho; não tenha medo do teu rei. Dias depois, o leão caiu numa rede. Urrou desesperadamente, debateu-se, mas quanto mais se agitava mais preso no laço ficava. Atraído pelos urros, apareceu o ratinho.
– Amor com amor se paga – disse ele lá consigo e pôs-se a roer as cordas. Num instante conseguiu romper as malhas. E como a rede era das tais que rompida a primeira malha as outras se afrouxaram, pôde o leão deslindar-se e fugir. (Monteiro Lobato)
O evangelho de Marcos do 26º Domingo do Tempo Comum é um conjunto de palavras de Jesus sobre assuntos diferentes. A linguagem usada é cheia de imagens e figuras. A primeira questão se põe quando alguém está expulsando demônios usando o nome de Jesus, mas não faz parte do grupo dos seus seguidores. Para o Mestre, tudo o que for feito em prol dos sofredores, em favor de uma vida mais livre e feliz, está a favor da grande causa do Reino e, portanto, não deve ser considerado ação inimiga. Até um gesto corriqueiro como oferecer um copo de água será reconhecido e recompensado. Outra questão: ninguém se deve considerar superior aos demais nos assuntos da fé e, sobretudo, não deve desprezar os pequenos e as pessoas simples que acreditam. Escandalizá-los, zombando da confiança que eles têm em Deus, será considerada uma culpa gravíssima. Por fim, Jesus lembra que o pecado – o mal que nós praticamos – não é fantasia, é muito real e concreto. Toda a nossa pessoa está comprometida em planejá-lo e realizá-lo; para isso, usamos a nossa mente e o nosso corpo exemplificado com as mãos, os pés e os olhos. Se estamos convencidos que a meta da nossa fé é participar da alegria do Reino talvez seja necessário “cortar” algumas atitudes erradas que nos afastam do amor a Deus e ao próximo. Essas ações a serem eliminadas são apresentadas novamente, através de alguns dos meios corporais que usamos para pecar: as mãos, os pés e os olhos.
Refletindo um pouco, talvez possamos reconhecer que os assuntos das palavras de Jesus, que nos parecem tão diferentes, possam ser reconduzidos a algo em comum e que não está tão longe da nossa experiência de vida. Todas aquelas situações escondem um conjunto de preconceitos e costumes nos quais podemos cair, sem perceber, numa armadilha da qual Jesus quer nos libertar. A primeira questão é sempre aquela de dividir o mundo e as pessoas em amigos e inimigos, conforme, evidentemente, as nossas ideias individuais e ou os favores que elas nos oferecem ou nos recusam. Para isso, tudo serve: os partidos, as ideologias, as bandeiras de todas as cores e também as religiões. Facilmente falamos de “nós” e dos “outros”, quase sempre de antemão sem reconhecer o positivo do outro lado e o negativo também do nosso. Entre os preconceitos em vigor está também o de julgar a fé e as suas manifestações dos irmãos e irmãs, talvez nos achando mais esclarecidos ou particularmente iluminados. Uma coisa é nos ajudar a vivenciar melhor e mais profundamente a Palavra de Deus, a Liturgia e a Caridade com todas as suas mais diversas expressões, outra coisa é julgar ter a exclusividade das rezas e do bem a ser praticado. Por fim, nem sempre usamos as nossas mãos para abençoar e socorrer e as usamos, ao contrário, para ameaçar e afastar. Os nossos pés, também, nem sempre seguem o Caminho que é o próprio Senhor. Damos muitas voltas ou preferimos ir longe. Os nossos olhos e a nossa cabeça agora viajam pelas telas dos smartphones e dos notebooks. Não serve “arrancar” os olhos, mas talvez desligar antes que o mal aconteça, sim. Nem precisa Jesus nos ameaçar com o “fogo do inferno”, basta reconhecer quanto o mal dos preconceitos, da soberba, da divisão, da cobiça e de tantos outros pecados acaba entristecendo a nossa vida pessoal, das nossas famílias e comunidades. Se cairmos em alguma dessas armadilhas, precisamos de alguém que venha roer as malhas da rede que nos prende. Até um ratinho ajuda, mas muito melhor se for Jesus com o seu amor.
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O mandarim e o alfaiate
O homem foi nomeado mandarim. Daquele momento em diante, seria uma grande autoridade e precisava de um manto adequado ao cargo. Um amigo lhe indicou um bom alfaiate de seu conhecimento. Para poder confeccionar o manto, o alfaiate quis saber desde quando o homem era mandarim. Aquele senhor estranhou a pergunta, mas o alfaiate logo explicou: “É que um mandarim recém-nomeado fica tão deslumbrado com o cargo que mantém a cabeça altiva, ergue o nariz e estufa o peito. Assim sendo, tenho que fazer a parte da frente maior que a parte de trás. Anos mais tarde, o trabalho e a experiência o tornam mais sensato e eu costuro o manto igual na frente e de trás. Com o passar dos anos, o seu corpo fica encurvado, sem mencionar a humildade adquirida através de uma vida de esforços e trabalho. Então eu faço o manto de forma que as costas fiquem mais longas que a frente. Portanto – concluiu o alfaiate – tenho que saber há quanto tempo o senhor está no cargo para que a roupa lhe assente apropriadamente”. O novo mandarim saiu da loja pensando menos no manto e mais na sabedoria daquele simples artesão.
No evangelho de Marcos do 25º Domingo do Tempo Comum, Jesus continua andando pelos caminhos da Galileia, ensina os seus discípulos e volta a falar da sua paixão, morte e ressurreição. Eles não compreendiam o que ele queria dizer. Estavam demais ocupados em outra questão. Animados, talvez, pela própria ambição, discutiam sobre quem seria o mais importante entre eles. Ao perceber o teor da disputa, Jesus derruba todas aquelas expectativas. Para o Mestre quem quiser ser o primeiro seja aquele que se coloca no último lugar e serve a todos os demais. O que vale mesmo é a busca do bem dos irmãos, a disponibilidade para servi-los, nada de briga pelo poder. Em seguida, para exemplificar a gratuidade do serviço, Jesus abraça uma criança e a coloca no meio deles afirmando que quem a acolherá, por causa do seu nome, estará acolhendo a ele em pessoa e aquele que o enviou: Deus Pai. Com efeito, uma criança era, e ainda é, totalmente dependente dos adultos. Só pode ser ajudada por generosidade, porque não tem poder algum para devolver algum favor e nem dinheiro para pagar a atenção recebida. Jesus fala aos discípulos, mas, no fundo, está apresentando a escolha dele de não ser um “messias” dominador, mas servidor, pronto para dar o exemplo de entregar a sua própria vida para que outros possam aprender a amar cada vez mais (Mc 10,45).
Não podemos excluir que a memória desse ensinamento de Jesus possa ter sido motivada por divisões e disputas de poder naquelas primeiras comunidades cristãs onde foi escrito o evangelho de Marcos. No entanto, a mensagem é de uma atualidade extraordinária entre pessoas e grupos da própria Igreja. Parece que a vontade de estar na frente e mandar nos outros é sempre uma grande tentação da qual não é fácil se livrar. Se também olharmos a situação atual da sociedade, existe uma verdadeira guerra para ocupar os primeiros lugares do poder em todos os âmbitos. As declarações são sempre juras de dedicação e humildade, mas depois, muitas vezes, na atuação prática acontece o contrário. No pensamento de muitos, quem chega a ocupar um cargo e não se organiza para se promover e subir mais é um incapaz que não soube aproveitar a oportunidade. Assim se perpetuam a corrupção e a descrença de que possa existir alguém que, estando em lugares de grande responsabilidade, consiga agir mais para o bem comum do que para os próprios interesses particulares. Para Jesus ser “últimos” não significa simplesmente ter humildade, verdadeira ou falsa que seja, mas saber de fato colocar os outros a nossa frente, trabalhar mais para o bem-estar dos demais do que para o nosso. Precisamos de autoridades que estejam a serviço do bem de todos, de maneira especial os mais necessitados e esquecidos. Segundo João 13,12-15, quando Jesus lavou os pés dos discípulos não disse que deixava de ser Mestre e Senhor, mas que era justamente nesta condição que os estava servindo de maneira tão exemplar. Um detalhe: na ocasião Jesus tirou o manto e cingiu o avental como faziam os servos. Não precisou de alfaiate.
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O burro na pele do leão
Um burro encontrou uma pele de leão que o caçador tinha largado no mato. Na mesma hora, o burro vestiu a pele e inventou a brincadeira de se esconder numa moita e de pular fora sempre que passasse algum animal. Todos fugiam assim que o burro aparecia. O burro estava gostando tanto de ver a bicharada fugir correndo, que começou a se sentir o rei leão em pessoa, e não conseguiu segurar um belo zurro de satisfação. Ouvindo aquilo, uma raposa, que ia fugindo com os outros, parou, virou-se e se aproximou do burro rindo: – “Se você tivesse ficado quieto, talvez eu também tivesse levado um susto. Mas aquele zurro bobo estragou a brincadeira”.
O evangelho de Marcos do 23º Domingo do Tempo Comum nos apresenta Jesus curando “um homem surdo, que falava com dificuldade”. Alguns detalhes chamam a nossa atenção. Estamos numa região de pagãos. São pessoas que não tem familiaridade com as Escrituras, mas também os discípulos não estão compreendendo bem o que Jesus fazia e ensinava (Mc 6,52). Precisa ter ouvidos atentos para escutar a Palavra e a língua solta para, depois, anunciar a novidade da Boa Notícia. A cura do surdo-mudo não é um espetáculo, é um encontro pessoal, por isso acontece fora da multidão, com gestos e uma ordem “Efatá”, que quer dizer “Abre-te”. Cabe a cada um de nós nos deixarmos alcançar por Jesus para que seja ele, com os seus dedos, a nos abrir os ouvidos e a tocar a nossa língua. O “segredo”, a não divulgação do acontecido, não tem como finalidade o escondimento em si, mas a perseverança no caminho da fé, até chegar ao pleno reconhecimento de Jesus como “Filho de Deus” após o sofrimento da cruz (Mc15, 39). No entanto, ao ver o homem escutando e falando corretamente, a turma fica tão impressionada que comenta repetindo algumas palavras da profecia messiânica de Isaías: “Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar” (cfr. Is 35,5). Fica bastante claro que esta cura tem um grande valor simbólico e se torna um compromisso para todos nós. Com efeito, o gesto e a palavra “Efatá” permaneceu no Rito do Batismo das Crianças acompanhada pelas palavras do ministro: “O Senhor que fez os surdos ouvir e os mudos falar, lhe conceda que possa logo ouvir sua Palavra e professar a fé para louvor e glória de Deus Pai”. No Ritual da Iniciação Cristã de Adultos, logo na primeira adesão, os candidatos ao Catecumenato são assinalados pelos catequistas nos ouvidos, com as palavras: “Recebam nos ouvidos o sinal-da-cruz, para que vocês ouçam a voz do Senhor”. Em seguida, são tocados na boca, com a palavras: “Recebam na boca o sinal-da-cruz, para que vocês respondam à palavra de Deus”.
Retomando o “silêncio” que Jesus pede aos que viram a cura do surdo-mudo podemos, simplesmente, pensar que a comunicação da mensagem do Evangelho, com a qual somos convidados a alimentar sempre a nossa vida de cristãos, não deva ser confundida com qualquer outra notícia, ou como se fosse uma propaganda qualquer. Não é só questão de respeito, é sobretudo questão de responsabilidade. Se não escutarmos bem o que o Senhor quer nos dizer com as suas palavras e se não experimentarmos os frutos dessa escuta praticando os seus ensinamentos, podemos falar bonito, mas não comunicamos aquela palavra viva que devemos ter no coração e que, aos poucos, está transformando a nossa vida. Essa escuta acontece no recolhimento, na oração, quando nos perguntamos o que o Senhor quer de nós e como podemos corresponder ao seu chamado. Nas missas também escutamos a Palavra e aclamamos “Graças a Deus” e “Glória a Vós, Senhor”. Grande é a missão daqueles que procuram explicar a Palavra de Deus aos irmãos. Primeiro, os pais cristãos nas suas famílias, depois os padres, os diáconos, os e as catequistas, aqueles e aquelas que não ficam calados quando devem dar o seu depoimento e, por fim, tantos outros que falam melhor com a própria vida do que com as palavras. A pele do leão que o burro vestiu pode ser até a Bíblia que carregamos, mas, quando falamos do Senhor, não dá para disfarçar se procuramos conhecer e vivenciar o seu Evangelho de verdade ou não. Se o coração está vazio, sai somente a nossa opinião.
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Vespas e abelhas
Assim como as abelhas, as vespas também fazem favos. A diferença é que os favos das vespas são vazios e os favos das abelhas são de uma riqueza espetacular. O ditado dos antigos: “as vespas também fazem favos”, chamava a atenção para a necessidade de se saber distinguir o que é realmente bom do que é bom só em aparência. O favo das vespas não tem nada; o mel só está no favo das abelhas.
Com o 22º Domingo do Tempo Comum, retomamos a leitura do evangelho de Marcos. A página que será proclamada nos apresenta uma controvérsia entre Jesus, os fariseus e os mestres da Lei. Essa turma de observantes das tradições dos antigos reparou que alguns dos discípulos de Jesus estavam comendo pão sem ter lavado as mãos. Nada demais, diríamos nós. No entanto, não era assim para eles. Mais do que simples normas de higiene, os rituais de purificação serviam para distinguir e preservar os judeus dos demais povos que praticavam outras religiões. O não cumprimento das tradições era considerado um grave desrespeito à própria fé, a Deus, enfim. Respondendo às indagações daqueles homens, Jesus transfere a questão num outro plano: do conjunto das manifestações exteriores, para o interior do coração humano. O verdadeiro culto a Deus não é feito de atos formais, através de uma mera obediência a preceitos humanos. A honra dele se realiza quando praticamos o bem e não deixamos sair do nosso coração todas aquelas “coisas” erradas, que nos afastam do próprio Deus e do nosso próximo. Jesus chama essas pessoas, preocupadas em lavar as mãos sem limpar o seu coração, de “hipócritas”, falsos, comediantes, que se apresentam de um jeito, mas na realidade são o oposto. Ele ensina que não serve para nada lavar as mãos antes de comer para garantir que nenhum alimento impuro entre em nós, porque a contaminação não vem de fora de nós, dos alimentos que comemos, porque eles não têm esse poder. A “contaminação” do mal/do impuro vem de dentro do nosso coração quando cultivamos aqueles maus pensamentos que nos fazem agir de forma errada, praticando o mal. Em poucas palavras, enganamos a Deus e a nós mesmos se cumprimos normas exteriores sem nos preocupar com o mais importante: purificar o nosso coração de todas aquelas ações, maquinações e atitudes que ofendem o mandamento de Deus, o amor, e nos levam a prejudicar e a fazer sofrer os nossos irmãos.
A hipocrisia é um mal no qual todos podemos cair. De maneira especial, hoje, quando temos a oferta de muitas expressões “religiosas”, das mais variadas, e, às vezes, nós também escolhemos a comunidade, a paróquia, o site, a reza, mais pela simpatia, o costume, porque nos sentimos bem, do que por desejar mudar algo de mais profundo na nossa vida cristã: a clareza da nossa fé, as escolhas morais, uma caridade mais comprometida e transformadora. Fique bem claro. Não estou desvalorizando as práticas exteriores. Precisamos muito delas, mas com a devida atenção para não nos tornar falsos. O nosso ir à Missa, por exemplo, revela a vontade e a seriedade da nossa fé. Se vamos, é porque não achamos tempo perdido a nossa participação na liturgia e, sobretudo, se nos alimentamos com a santa Eucaristia. Igualmente, uma manifestação religiosa, uma novena, uma reza, mais ainda se com numerosa participação do povo, encorajam-nos a reconhecer o valor da mensagem do Evangelho, o exemplo de Maria e de tantos santos e santas nossos padroeiros e padroeiras. O perigo está em cumprir tudo isso como se fosse uma mera obrigação, um costume tradicional, para dizer, depois, que participamos, mas sem que aquele momento consiga fazer acontecer algo novo em nossa vida de cristãos: um novo propósito, um novo compromisso, uma nova atitude. Essas são escolhas que exigem uma decisão que só pode vir do profundo do nosso coração, da nossa consciência, motivada pela fé e pelo amor a um Deus no qual não só dizemos acreditar, mas que também deixamos que ilumine com sua luz a nossa vida inteira, dentro e fora. Nada de coração vazio. Queremos ser como as abelhas, com favos cheios e doces, de verdade.
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