
Dom Pedro Conti

Os dois escravos
Um rei tinha dois escravos muito capacitados, obedientes e prestativos. Um dia, por causa da fidelidade deles, quis premiá-los. Chamou o primeiro e lhe disse:
– Como recompensa do seu trabalho lhe dou a liberdade e uma boa quantia de dinheiro para viver bem com a sua família. Vá em paz! Depois chamou o segundo e lhe disse:
– Como recompensa do seu trabalho lhe dou a liberdade. Quero, porém, que fique aqui comigo como meu conselheiro e amigo.
Depois disso, os dois antigos escravos se encontraram e partilharam as decisões do rei. Apesar da liberdade e do dinheiro, o primeiro não ficou satisfeito e voltou com o rei para saber das razões do tratamento desigual. Logo perguntou:
– Senhor, o meu serviço não era tão bom como aquele do outro, por que esta diferença? O rei respondeu:
– Você tem razão, o serviço de ambos sempre foi excelente, mas você me obedecia por medo de ser castigado. Desejava a liberdade. Foi o que lhe dei. O outro, ao contrário, sempre obedecia para ter, em primeiro lugar, a minha estima e a minha amizade. Por isso, eu quis ficar com ele.
No evangelho de João deste 21º Domingo do Tempo Comum, chegamos à conclusão do capítulo 6, cujo assunto principal, é bom lembrar, é a apresentação de Jesus como “o pão descido do céu”, “o pão da vida”. Nos versículos anteriores, Jesus afirma que o sinal do pão, é “carne” – ou seja o corpo-vida – dele – e é verdadeiro alimento para os que acreditam. Igualmente, o sinal do vinho – o sangue-vida derramado na cruz – é verdadeira bebida. Para entender essa passagem do “pão” (e vinho) para “a carne e o sangue” precisamos confrontar as duas afirmações que encontramos em João 6,51: “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente” e em João 6, 54: “Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”. Esse jeito de falar gera a dúvida dos judeus que não compreendem o sentido do sinal do “pão” e se perguntam: “Como é que ele pode dar a sua carne a comer?” (Jo 6,52). Os discípulos também não entendem e dizem que é uma palavra “dura” demais: “Quem consegue escutá-la?” (Jo 6,60). Acreditar, de verdade, é exigente, pede escolhas. “A partir daquele momento, muitos discípulos”, diz o evangelho, “voltaram atrás e não andavam mais com ele” (Jo 6,66). Por isso, Jesus pergunta aos doze se também querem ir embora. A resposta de Simão Pedro: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68) além de uma declaração de fé no “Santo de Deus”, é o reconhecimento dele como presença e fonte daquela vida plena que somente Deus pode dar.
O nosso pensamento vai de imediato a quantos passaram e passam pelas nossas paróquias, comunidades, grupos e movimentos, a quantos recebem os sacramentos, e depois… não participam mais. Jesus não obriga ninguém a segui-lo contra a sua vontade ou por medo. Mas ele, também, não quer seguidores de qualquer jeito. Conseguimos acompanhar Jesus – mais ou menos e cada um com o seu jeito – somente se reconhecermos nele “palavras de vida eterna”, ou seja, algo que possa realmente abrir novos horizontes para a nossa existência. Todo o esforço da Igreja com a sua organização e as suas atividades, de fato, deve ter uma só finalidade: anunciar a fé em Jesus de uma forma que permita o encontro livre e pessoal com ele. Devoções, costumes, conjunto de doutrinas, planejamentos, tudo pode ajudar, mas nada substitui a nossa adesão consciente e responsável à pessoa de Jesus. É ele que precisamos conhecer mais e melhor. É a sua palavra e o seu exemplo que devem ecoar em nossa consciência, quando somos chamados a tomar as grandes decisões da nossa vida, quando exultamos e agradecemos pelas metas alcançadas. Contudo, é com o tempo que passa, no serviço cotidiano, cansativo e rotineiro, na fidelidade humilde e escondida, na oração e no silêncio da nossa secreta interioridade, que amadurecemos a amizade com Jesus. Se formos cristãos por amor ao Senhor e não para aparecer ou para ganhar alguma coisa, será ele mesmo a nos chamar, um dia, de amigos seus e não mais de servos (Jo 15,15).
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A colheita
Dois camponeses trabalhavam em duas roças vizinhas. Passavam os dias a semear e a colher, sempre curvados sobre a terra. Nunca falavam entre si, estavam ocupados demais para perder tempo. Um dos dois, porém, vez por outra, endireitava-se, estendia os braços, louvava e agradecia a Deus. O outro, que ficava espiando às escondidas, pensava que o vizinho não era tão bom da cabeça. A colheita era sempre muito boa para ambos, porque Deus recompensava igualmente quem o louvava com a oração e quem continuava trabalhando. Os anos passaram e, um dia, por causa da idade, os dois tiveram que deixar o trabalho da roça. Mais uma vez, aquele que estava acostumado a louvar ao Senhor, levantou os braços e agradeceu. O outro ficou todo encurvado, não conseguia mais se endireitar. Dizem que se endireitou só quando aprendeu a rezar.
Neste domingo, celebramos a solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria ao céu. Acreditamos que Maria, por sua única e singular participação no mistério da encarnação do Filho de Deus, já esteja gloriosa no céu junto ao Cristo ressuscitado. A essa meta, a vida plena e amorosa de Deus, nós todos somos chamados e alimentamos a esperança de chegar lá um dia. Na página do encontro entre Maria e Isabel, o evangelista Lucas nos apresenta o hino com o qual Maria engrandece ao Senhor pelas maravilhas que ele fez olhando à humildade de sua serva. Esse hino é também um exemplo de oração e a Igreja nos convida a rezá-lo todos os dias na oração das Vésperas. Sobre isso, quero refletir um pouco porque papa Francisco nos convida, neste ano de 2024, a preparar o Jubileu de 2025 meditando justamente sobre a oração. Acredito que todos possamos aprender a rezar melhor, inspirados no hino de Nossa Senhora.
O ponto de partida de toda oração deve ser a consciência da pobreza da nossa condição humana. Nada de arrogância ou de apresentar merecimentos. Tudo é obra de Deus. Com efeito, Maria reconhece que se todas as gerações a “chamarão de bem-aventurada”, foi por total gratuidade do amor de Deus que a escolheu. Outra atitude do orante deve ser o reconhecimento da grandeza e da bondade de Deus. Ele é “santo” e nós somos pecadores, mas a sua misericórdia não tem limites. A compaixão de Deus com os pobres e os humildes se revela numa nova justiça social. Os poderosos e os soberbos são rebaixados e os pequenos enaltecidos, os famintos recebem com fartura e os ricos vão embora de mãos vazias. Parecem palavras chocantes, mas afirmam simplesmente que Deus está do lado dos pobres, porque eles não têm outro protetor e defensor. Os grandes confiam no seu próprio poder, os pobres clamam e invocam a Deus, só a ele podem recorrer. Maria retoma a pregação confiante dos profetas quando garantiam a escuta, por parte de Deus, da oração do órfão e da viúva à revelia daqueles que os exploravam sem temor algum. O final do hino é o reconhecimento da fidelidade de Deus às suas promessas feitas a Abraão e à sua descendência para sempre.
Com o hino de Maria podemos aprender a rezar melhor. Não é questão de acertar palavras ou posturas. A nossa oração será mais viva e sincera se iluminada pela fé em Deus. Na oração, rezamos de verdade somente se acreditarmos que alguém esteja nos escutando interessado e atencioso conosco. Por isso, também quando rezamos juntos com os irmãos, a nossa oração é sempre profundamente pessoal. Ela vai juntamente com a nossa fé e com o jeito com o qual cada um de nós se relaciona com Deus. Com efeito, só falamos e abrimos o nosso coração com quem confiamos. Para Maria, Deus não era um desconhecido, tinha familiaridade, intimidade, era o Deus das promessas, mas também dos pequenos, um Deus comprometido com o seu povo. Maria rezava com os demais e, como todos, aguardava a chegada do Messias. Provavelmente, em certos momentos da vida, todos rezamos, mas muito melhor seria se, todos os dias, pudéssemos abrir o nosso coração ao Pai providente e bondoso, ao Filho que nos ensinou a amar até ao fim e ao Divino Espírito, luz, força, coragem para nós também anunciarmos as maravilhas de Deus. Como Maria.
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Esquecer o essencial
Num dia de sábado, Josué descobriu seu genro fumando.
– O que está fazendo, Abraão, não tem vergonha?
– O que foi querido sogro? – perguntou espantado o jovem.
– Como pode um hebreu esquecer que hoje é sábado?
– Mas eu não esqueci que hoje é sábado – foi a simples resposta do genro.
– E então o que aconteceu?
– Aconteceu que me esqueci de ser hebreu!
No 18º Domingo do Tempo Comum continuamos a leitura do capítulo 6 do evangelho de João. Como já expliquei, outras vezes, esse evangelista tem um jeito próprio de nos comunicar a sua mensagem. O faz através de perguntas e respostas, comparações e mal-entendidos que permitem aprofundar o assunto. Por exemplo, na página do evangelho deste domingo devemos prestar atenção às palavras que acompanham os dois tipos de alimentos: “aquele que se perde” e “aquele que permanece até a vida eterna e que o Filho do Homem vos dará” (Jo 6,27). Após a multiplicação dos pães e dos peixes, quando todos ficaram satisfeitos, o povo continua a procurar Jesus. Ele entende o esforço daquelas pessoas para encontrá-lo novamente, mas as exorta a procurar um alimento novo, diferente. O próprio Jesus apresenta a si mesmo como esse “novo” alimento e diz: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo 6,35). Aparece claro, a essa altura, que Jesus não está mais falando de um alimento qualquer, perecível, como foi o maná que caiu do céu no deserto no tempo de Moisés. Ele fala agora de um alimento novo para uma vida nova, a vida “eterna”, ou plena, que somente pode ser dom de Deus Pai que dá o “verdadeiro pão do céu” (Jo 6,32) enviando aquele que “marcou com o seu selo” (Jo 6,27). É nele, Jesus, que devem acreditar aqueles e aquelas que querem realizar “as obras de Deus” (Jo 6,29).
Refletindo sobre todas essas palavras bonitas do evangelho de João, o nosso pensamento vai imediatamente à Eucaristia que celebramos e da qual nos alimentamos como Jesus mandou fazer em memória dele. Os sinais são aqueles escolhidos do pão e do vinho, mas deve ficar claro que a celebração da Eucaristia nos quer conduzir muito mais longe em nossa vida de cristãos. Faz parte da nossa experiência saber que todos nós precisamos de alimentos e de bens materiais para sobreviver. Alguns desses bens são absolutamente necessários, outros acabam se tornando indispensáveis conforme o nosso jeito de viver. O exemplo mais fácil é o da própria internet. Até alguns anos atrás nem sabíamos o que era, hoje ficamos angustiados se a velocidade e o tamanho do sinal não correspondem imediatamente às nossas expectativas. Também hoje funciona perfeitamente a chamada indústria da diversão. Afinal ninguém é de ferro, precisamos nos divertir, relaxar, consumir aquilo que nos é apresentado como capaz de dar prazer e felicidade. Nem certas formas de religiosidade escapam dessa busca de bem-estar e de satisfação individual. Estamos esquecendo o essencial, ou seja, que a vida é muito mais do que tudo isso. Ela é feita, em primeiro lugar, de relações entre as pessoas com as quais nos confrontamos e nosos ajudamos a resolver as grandes questões da existência. Por ocupada que seja, é pobre e, talvez, vazia, a vida de quem não sente a falta dos seus pais, dos seus irmãos, de amigos com quem partilhar sonhos e esperanças junto com os medos e as decepções que todos enfrentamos. Estamos fugindo das grandes perguntas das quais ninguém pode se esquivar, aquelas que dão sentido ao nosso amar, sofrer e, um dia, morrer. Celebrar a Eucaristia de Jesus é reconhecer nele alguém que viveu plenamente porque nunca buscou satisfações pessoais, mas passou neste mundo “fazendo o bem” a quem precisava. Ensinou que é doando vida aos outros que salvamos a nossa do vazio e do tédio. Precisamos resgatar a nossa fome e a nossa sede de amor, de paz, de justiça e fraternidade. Por causa daquilo que passa e perece, do material e do virtual, estamos esquecendo do essencial. Acreditar e confiar em Jesus é ter a “certeza da fé”: só quando amamos realizamos “as obras de Deus”, um Deus que é amor, bondade e compaixão.
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Tinham direito ao almoço
No início do século passado, uma pobre família do Sul da Europa decidiu emigrar para os Estados Unidos. As viagens eram de navio e duravam muitos dias. Levaram consigo bastante pão e queijo; era o que tinham para se alimentarem durante a viagem. O dinheiro não dava para comer no restaurante do navio. Com o passar dos dias e das semanas, porém, o pão ficou duro e o queijo mofou. A certa altura, o filho do casal começou a chorar porque não aguentava mais aquela comida velha. Os pais, então, juntaram o pouco dinheiro que tinham e decidiram pagar um almoço para o filho. Este foi, comeu e voltou chorando mais ainda, mas, desta vez, de raiva e amargura. Os pais, preocupados, perguntaram por que, depois de ter feito tudo o que podiam, não estava satisfeito e chorava tanto. Entre os soluços, o filho respondeu: “O almoço no restaurante estava incluído no preço da passagem e nós comemos pão e queijo todos estes dias!”.
No evangelho de Mateus, deste 17º Domingo do Tempo Comum, encontramos mais três parábolas sobre o Reino dos Céus. Duas delas se assemelham, apresentam a busca por um tesouro escondido e por uma pérola de grande valor. A terceira parábola compara o Reino a uma rede lançada ao mar que apanha peixes bons e peixes que não prestam. Essa última pode ser entendida à luz da parábola do joio e do trigo, que encontramos domingo passado. O final do trecho é curioso. À pergunta de Jesus se os discípulos tinham compreendido o que ele acabava de ensinar, eles disseram que sim. A resposta permitiu ao Mestre fazer mais uma comparação entre os discípulos e um pai de família que “tira do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13,52). É a conclusão do discurso em parábolas e serve para nos lembrar da dinamicidade das mesmas. As parábolas não são simples casos para contar, elas nos envolvem e sempre suscitam mais perguntas que respostas.
Nesse sentido, as duas parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa são exemplares. Em ambos os casos, estamos à frente de pessoas que sabem dar o valor merecido àquilo que encontraram. Para o que descobre o tesouro escondido no campo pode ser simplesmente um caso de muita sorte. Contudo ele guarda o segredo antes de comprar aquele campo, porque sabe quanto vale o que encontrou. No caso da outra parábola, o comprador de pérolas está atrás mesmo de uma de grande valor. Ou seja: nenhum dos dois pensa duas vezes ou despreza e descarta o achado. Ambos vendem logo “todos os seus bens” para adquirir o campo e a pérola preciosa. A mensagem é evidente: o tesouro e a pérola são o próprio Reino dos Céus. Pelo jeito, os dois consideraram tão valioso o que encontraram que eles decidiram se desfazer de qualquer outro bem. Por que uma decisão tão radical? Não seria, talvez, uma loucura ou uma imprudência? Obviamente não é assim para o Senhor como ele ensinou no Discurso do Monte: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo” (Mt 6,33).
A lição vale para todos nós. Muitas vezes falamos bonito de Deus, da sua bondade e misericórdia, mas resistimos a arriscar algo da nossa vida por causa do Reino dos Céus. Admiramos e falamos bem daqueles e daquelas que fazem escolhas mais radicais, que empregam os seus talentos a serviço dos pobres, que gastam a sua vida por causa do Evangelho. No entanto, parece que a maioria dos cristãos continua desconfiando do valor inestimável do Reino e prefira preciosidades mais mundanas e passageiras, mas que se possam contar e guardar no cofre. Sem dúvida, a disposição de fazer escolhas mais corajosas é um dom de Deus que podemos pedir, mas as parábolas, desde domingo, convidam a todos nós a superar o comodismo, o medo de ser julgados esquisitos e fanáticos ou, pior, de sermos enganados pelo próprio Senhor. Enfim, continuar comendo pão e queijo, quando os passageiros tinham direito ao almoço, foi burrice. Por que não se informaram antes? O Reino dos Céus está próximo (Mt 3,2), é oferecido a todos, basta reconhecer o seu valor e buscá-lo de verdade.

Os ratinhos e a pedra turquesa
Um homem se cansou da convivência com os seus semelhantes e se retirou num ermo bem afastado. Buscava paz, mas não a encontrou. A lembrança das pessoas que havia deixado o atormentava. Seus sonhos estavam povoados de sons, vozes e cantos. Certo dia, quando estava rezando em frente ao sacrário, viu que algum devoto tinha deixado, em meio às ofertas, uma bela pedra turquesa. Atraído pela cor da pedra, apareceu um ratinho que tentou arrastá-la. Não conseguiu. Voltou com mais outro ratinho e os dois pelejaram para remover a pedra. Também não deram conta. Começaram a guinchar e apareceram mais oito ratinhos. Juntos, com muito esforço, conseguiram concluir a façanha. O eremita tinha entendido a mensagem. Voltou no meio das pessoas, para aprender a se alegrar com a companhia dos outros e unir a sua obra à dos demais.
O trecho do evangelho de Marcos que encontramos no 16º Domingo do Tempo Comum nos apresenta a volta dos discípulos que Jesus tinha enviado, como soubemos pelo evangelho de domingo passado. No entanto, é bom lembrar que entre a ida e a volta dos missionários, o evangelista Marcos coloca o martírio de João Batista com uma introdução muito significativa. Nela se diz que “o nome de Jesus se tornara muito conhecido” e o próprio Herodes já tinha ouvido falar dele (Mc 6,14-16). É nessa situação de fama, mas também de perigo, que Jesus conduz os apóstolos a um lugar deserto e afastado para que descansem um pouco. Todos, incluindo o próprio Mestre, precisam decidir se continuam ou não na missão. Isso porque, de um lado, tem o povo que continua chegando e saindo atrás deles e, de novo, “não tinham tempo nem para comer” (Mc 3,20 e 6,31). Do outro lado, porém, aumenta o grupo daqueles que hostilizam Jesus. Até para Herodes era um incômodo ter um novo João Batista “ressuscitado”. Para tomar uma decisão tão importante, nada melhor que um pouco de descanso, não vazio, mas cheio de silêncio e oração, como Jesus estava acostumado a fazer, quando se retirava sozinho. Não conseguiram o que desejavam. Aqueles que os tinham visto sair de barco, foram em frente e, ao desembarcar, eles encontraram uma numerosa multidão aguardando. Qual foi a reação de Jesus? Fugir, esconder-se? Não. Ele “teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Nada de medo ou de incertezas. Ele se doou totalmente e começou “a ensinar-lhes muitas coisas”.
Conviver com os outros, sejam eles parentes, amigos, colegas de trabalho ou irmãos e irmãs de comunidade, cansa. De maneira especial, por estarmos numa sociedade apressada, onde toda hora nos cobramos uns aos outros algo para fazer e esperamos uma resposta mais do que imediata. Nem sempre damos conta. Sobretudo quando o que nos é pedido não é um mero serviço, mas é uma atitude, uma compreensão, um gesto e, talvez, um sentimento. Algo mais profundo, enfim, que torne mais humanos os nossos relacionamentos, constituídos, muitas vezes, só de interesses, obrigações, compromissos e formalidades. Para não reduzir tudo à rotina do dia a dia, precisamos da compaixão e da palavra. Compaixão não é ter pena do outro, mas é a capacidade de se colocar do seu lado, de conseguir imaginar o que ele ou ela espera de nós, o que gostaria ouvir ou receber naquele momento. Por isso, é importante a nossa comunicação pela palavra, na condição óbvia de que não seja falsa ou a repetição de frases de efeito. Quando falamos com os outros com sinceridade, nós nos apresentamos por aquilo que somos e por aquilo que sentimos. Discursos de ocasião arrancam aplausos, mas não curam feridas, não consolam, não aquecem o coração. Assim devia ser o ensinamento de Jesus: uma palavra viva que tocava e dava esperança. Também quando era dura e exigente mexia com as pessoas, porque comunicava sempre um Deus misericordioso e paterno. Ficar no meio do povo, em comunidade, cansa, mas quando tiramos as máscaras e sabemos unir as forças, para dialogar e colaborar, nenhuma “pedra” é impossível de ser removida. ■
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Uma difícil missão
São Gregório, o Taumaturgo (213?-270?), depois de uma juventude serena e reflexiva, transcorrida no estudo das ciências humanas e divinas, decidiu retirar-se no deserto e viver em solidão. Conhecendo as capacidades dele, o bispo de Amaséia decidiu que devia ser padre. Entre ele e o santo travou-se uma verdadeira luta. O bispo queria absolutamente ordená-lo, mas Gregório não se achava à altura da missão. Depois de muita insistência, ele teve que ceder. Foi arrancado do deserto, consagrado bispo e logo encarregado da comunidade de Cesareia formada por algumas dezenas de milhares de pessoas, todas pagãs, menos 17 cristãos. Com a santidade da sua vida e com os milagres que foram a consequência disso, concluiu os seus dias depois de ter ganhado todos a Cristo. Essa era a realidade dos primeiros séculos da Igreja.
Na página do evangelho de Marcos do 15º Domingo do Tempo Comum encontramos o chamado dos doze apóstolos e o envio deles em missão. Jesus lhes confia a pregação retomando o seu convite inicial à conversão ou ao arrependimento (Mc 1,15). Alguns sinais acompanharão as palavras deles: o poder sobre os espíritos impuros, a expulsão de demônios e a cura de “numerosos doentes ungindo-os com óleo”. Entendemos que esses são os mesmos “sinais” de libertação que o próprio Jesus manifestava com o seu agir. Ele promovia uma grande “reconciliação”, uma vida “nova” de saúde, paz e misericórdia para os doentes, os pobres e os pecadores que não podiam cumprir as normas da Lei e se sentiam, portanto, excluídos do amor de Deus Pai. Nesse sentido, compreendemos as exigências que Jesus coloca para os missionários. Eles devem ir de dois em dois. Isso significa dar exemplo de trabalho em conjunto, proclamar a mesma mensagem, caminhar unidos, formar comunidade. Não é possível querer ensinar a comunhão aos outros se os discípulos não vivem, por primeiro, a fraternidade entre si, o que diz muito para nós hoje. Depois vem a falta de recursos. A simplicidade e a pobreza são sinais de confiança na providência de Deus, mas também a esperança de acolhida nas casas que irão visitar. Para caminhar servem um cajado e as sandálias, porém a bagagem nas costas deve ser leve, não precisa carregar um guarda-roupa inteiro. Além disso, devem ser colocados na conta o possível fracasso, as portas e os corações fechados. Nem todos estarão dispostos a acolher aqueles desconhecidos, sem títulos, sem bens para oferecer, além de palavras bonitas e desafiadoras.
Hoje diríamos: por que tanta falta de organização? E se acontecer algum imprevisto? A falta de segurança e o despojamento dos mensageiros deviam servir para que eles não chamassem tanta atenção sobre si, como faziam certos pregadores itinerantes que cobravam caro pelos seus ensinamentos. Somente assim, a mensagem da conversão era visivelmente apresentada por meio das atitudes e das palavras dos próprios mensageiros. Não teria servido para nada anunciar a novidade do Reino de Deus e depois surpreender as pessoas com aparências chamativas ou humilhar os pobres com luxo e poder. À essencialidade da Boa Notícia devia, e deve, corresponder à essencialidade da vida das testemunhas. Obviamente, naquele tempo, não se falava de Pastoral da Visitação e, menos ainda, de Projetos de Evangelização. Com isso, não quero dizer que os Planos de Pastoral sejam inúteis. Ao contrário, precisamos conhecer bem a realidade e ter claros objetivos e meios da ação evangelizadora da Igreja. A busca da eficiência ajuda a não desperdiçar oportunidades e recursos. No entanto, não podemos absolutamente esquecer a ação misteriosa do Divino Espírito Santo. Atividades organizadas, eventos e momentos participativos, grandes ou costumeiros, como as nossas Missas dominicais e festivas, não excluem os encontros pessoais, as conversas fraternas, o “corpo a corpo” da partilha fraterna da fé, da oração, da benção de quem ainda a pede, da escuta de quem chora, do sorriso para quem está triste e abatido. A missão continua difícil, mas muitos ou poucos milagres, a curto ou longo prazo, para quem acredita, sempre acontecem.
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O homem inquieto
Certa vez, um homem foi procurar o Profeta. Antes que ele abrisse a boca, o Profeta lhe disse:
— Vieste para me perguntar o que a virtude? Respondeu o homem:
— Como o senhor sabe? Continuou o Profeta: porque te vejo tenso e inquieto. Agora, escuta: para saber o que é a virtude, deves interrogar o teu coração. A virtude é tudo aquilo pelo qual a alma goza de repouso e o coração de tranquilidade. O pecado é aquilo que traz turbamento à alma e tumulto ao coração. Não percas tempo a perguntar de um lado e do outro o que é a virtude. Tens que vivê-la. A tua alma e o teu coração te responderão.
A página do evangelho de Marcos do 14º Domingo do Tempo Comum nos diz que Jesus chegou a Nazaré, o povoado onde tinha se criado e vivido, por mais ou menos uns 30 anos, até iniciar aquela que chamamos de “vida pública”. Pouco sabemos desses anos da vida de Jesus. Numa vila pequena, todos se conhecem. Jesus era “o carpinteiro”, a mãe era Maria e públicos eram os nomes de alguns dos seus parentes mais próximos. Tudo deixa pensar que Jesus tenha transcorrido a maior parte daqueles anos numa vida muito simples e comum, aprendendo e praticando um trabalho manual, além de cumprir as obrigações de um homem judeu. Provavelmente, ele tinha deixado Nazaré alguns tempos antes, talvez, para conhecer melhor João Batista. Em seguida, porém, Jesus tinha tomado o seu próprio rumo. Começava a viver como um “profeta itinerante”, ensinando e juntando os primeiros discípulos. Algum fato considerado extraordinário, como as curas, ou duvidoso, como a expulsão de demônios, tinha criado e espalhado uma certa fama dele através das conversas do povo e assim tudo isso, com certeza, o tinha precedido a Nazaré. Ser do mesmo lugar devia favorecer Jesus, mas acabou sendo um obstáculo ao seu modo de falar e de agir. O “profeta” não foi bem acolhido em sua pátria. Ficaram “escandalizados”, ou seja, recusaram-se a aceitar a novidade que Jesus representava. Para explicar isso, podemos especular outras motivações como a inveja, a desconfiança, o medo de se comprometer com as autoridades religiosas e políticas como os escribas, os fariseus e os partidários de Herodes que, já sabemos, não gostavam nada de Jesus. No entanto, pelo evangelho, a causa da rejeição foi a falta de fé deles. Dizendo que ali Jesus “não pôde fazer milagre algum” (Mc 6,5), o evangelista Marcos nos ensina que a fé é a condição necessária para que algo diferente ou extraordinário aconteça. Jesus não é um milagreiro qualquer. Ele tem uma boa notícia para anunciar e testemunhar para que outros continuem a mudar as doenças em saúde, as tristezas em alegria, os pecados em vida nova. A chegada do Reino de Deus pede a fé num Deus amoroso, que quer envolver a todos em novos relacionamentos de fraternidade e paz, de justiça e amor.
Hoje somos nós os convidados a acolher o “profeta” Jesus. Precisamos entender, porém, que o verdadeiro milagre que a fé nele pode fazer em nós, é muito mais do que a cura de uma ou outra doença. Também não basta dizer que ele nos salvou dos nossos pecados, derramando seu sangue na cruz e que já estamos perdoados. Ter fé de verdade significa arriscar mesmo sobre a sua palavra. Talvez continuamos a servir mais ao dinheiro do que ao Senhor. Continuamos a colocar o nosso bem estar, a nossa segurança, as nossas vantagens antes da fome de muitos, da dignidade dos irmãos menos favorecidos, da sobrevivência do planeta explorado até a exaustão. Chamamos de paz e tranquilidade a nossa indiferença e a nossa insensibilidade. Culpamos o sistema, apontamos o dedo contra os outros, temos dificuldade a reconhecer os muros que construímos para não ver e nos deixar atingir pelos sofrimentos dos pequenos. A nossa fé vivenciada é a nossa colaboração com o projeto de Jesus. Ele não pode e não quer fazer tudo sozinho. Ele quer que nós confiamos nele e façamos a nossa parte. Quantos de nós vivem tensos e inquietos por muitas razões! Jesus têm questionamentos e inquietações saudáveis, que se transformarão em virtude, porque somente vivendo o amor e a bondade encontraremos o repouso da alma e a tranquilidade do coração.

Chefes ou servidores
“O chefe se impõe: Aqui mando eu. O servidor: Contem comigo.
O chefe existe pela sua autoridade; o servidor pelas suas atitudes.
O chefe exige impor-se com extensos argumentos; o servidor com exemplos e testemunhos.
O chefe inspira medo; sorriem-lhe pela frente e o criticam pelas costas. O servidor inspira confiança, dá poder à sua equipe, os entusiasma e, quando está presente, fortalece o grupo.
O chefe sabe como se faz as coisas; o servidor ensina como devem ser feitas. O primeiro guarda segredos, o outro capacita as pessoas para alcançar a meta.
O chefe chega em cima da hora; o servidor chega adiantado e transforma pessoas ordinárias em pessoas extraordinárias. Compromete-as com uma missão que lhes permita a realização. Dá sentido à vida de seus seguidores, uma razão para viver… É um arquiteto humano.
O chefe se aproveita dos demais. O servidor dá sua vida pelos que ama.”
Todo ano, com a solenidade de São Pedro e São Paulo, celebramos a memória desses dois grandes apóstolos. “Por diferentes caminhos, os dois congregaram a única família de Cristo e, unidos pela coroa do martírio, recebem hoje, por toda a terra, igual veneração”. Assim proclamaremos no prefácio da missa. Essa festa nos oferece a oportunidade de refletir um pouco sobre algo que é próprio da nossa Igreja, que chamamos de católica, apostólica e… romana. Por isso, rezaremos de maneira especial pelo Santo Padre papa Francisco. A “cabeça” da Igreja, pensada como um corpo vivo, é o próprio Senhor Jesus (Cl 1,18). Não devemos ter dúvida alguma. No entanto acreditamos que ele tenha deixado alguém, necessariamente humano, com a missão desafiadora de ser um sinal visível de unidade na fé. O papa é humano e, portanto, limitado. Não sabe tudo e não pode fazer tudo. Precisa de colaboradores, bons e sinceros, mas, sobretudo, precisa da confiança de todos os cristãos para cumprir a sua difícil missão: manter unida a Igreja. Vivemos tempos de individualismo exacerbado e de autopromoção sem nos perguntar se isso ajuda a unidade e a comunhão ou satisfaz o nosso gosto de querer ser diferentes a qualquer custo.
Conhecer e obedecer às normas da Igreja não significa ser submissos ou nos sentir frustrados em nossa personalidade. Se pensarmos, por exemplo, nas nossas celebrações litúrgicas, quando todos – crianças e adultos – conseguem cantar juntos, ninguém deve se achar diminuído. Ao contrário, fazemos a experiência de uma voz unânime, sentimo-nos parte de algo bem maior que a nós mesmos. Essa comunhão é tão grande que, nas missas, rezamos pelos vivos e pelos mortos, pelos presentes e os ausentes, pelos santos e santas, que já cantam no céu a glória de Deus. Também a fila para receber a Eucaristia não serve só para aguardar a nossa vez. Nos ensina a caminhar juntos, alimentados pela mesma Palavra e pelo mesmo Corpo do Senhor, sem fazer gestos particulares de devoção.
Comecei falando da “autoridade” do papa e acabei fazendo exemplos bem comuns entre nós. Foi só para lembrar que aqueles que, às vezes, consideramos “chefes”, na realidade são companheiros na mesma caminhada. Bispos, padres e todos aqueles que têm alguma tarefa específica na Igreja, estão a serviço do único Povo de Deus e comprometidos a construir a unidade, também, através da obediência aos simples e pequenos gestos que, porém, formam, aos poucos, o nosso jeito de pensar e acreditar na Igreja. Toda “autoridade” tem essa missão a cumprir. O papa Francisco não inventou os Sínodos sobre a “sinodalidade” para complicar as coisas, mas, para nos lembrar e incentivar naquilo que nós todos somos chamados a zelar: caminhar juntos e todos na mesma direção. Somente assim a Igreja pode ser um sinal de esperança, paz e fraternidade num mundo tão dividido e conflituoso. São Pedro e São Paulo foram muito diferentes, mas “congregaram a única família de Cristo”. Não foram simplesmente “chefes” ou organizadores, foram verdadeiros servidores da comunhão no único Corpo de Cristo.
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Medo e Coragem
A Coragem estava sendo perseguida pelo Medo. Procurou abrigo para passar a noite. Bateu à porta da Covardia, porém ela não lhe abriu e disse que não a conhecia. Bateu à porta da Mentira, que também não lhe atendeu alegando não estar em casa. Bateu, enfim, à porta da Preguiça, e ela se justificou: “Já estou deitada”. Então, a Coragem tomou coragem. Bateu à porta da Vontade e essa logo a abriu convidando-a para entrar. Quando amanheceu, as duas saíram de casa e o Medo vendo a Coragem e a Vontade juntas, fugiu.
Continuando na sua “catequese”, o evangelho de Marcos do 12º Domingo do Tempo Comum, apresenta-nos mais uma pergunta sobre a identidade de Jesus. “Quem é este homem, a quem até o vento e o mar obedecem?” assim os discípulos “diziam uns aos outros”, depois que Jesus acalmou a tempestade durante a travessia do Mar da Galileia. Podemos ficar encantados com o poder de Jesus, mas é mais do que evidente que o evangelista quer nos conduzir muito mais longe que, simplesmente, nos contar um fato extraordinário ou milagroso. O objetivo do anúncio evangélico é sempre fazer-nos crescer na fé e na confiança em Jesus. Com efeito, é ele mesmo que questiona os discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”.
O medo dos discípulos é devido ao vento muito forte e às ondas que começavam a encher o barco. No entanto, Jesus parece não ligar para isso; ele dorme “sobre um travesseiro”. A quem apelar? Foi o Mestre que ordenou ir para “a outra margem”. Os discípulos, então, decidem acordá-lo com um grito de socorro: “Estamos perecendo e tu não te importas?”. Pelas palavras deles e de Jesus entendemos que há algo mais em jogo que aquele momento de tempestade e de medo. Naquele barco está o Mestre e a sua nova e pequena comunidade; eles são os seus primeiros seguidores. O evangelho, porém, foi escrito sobretudo para aqueles que virão depois, preparando-se para seguir Jesus – os catecúmenos – ou os já batizados e, portanto, todos os cristãos. A ordem de ir “para a outra margem” é uma antecipação do envio missionário fora das cidades conhecidas de Cafarnaum e Nazaré. Pelas suas palavras e atitudes, Jesus está encontrando a incompreensão dos familiares e aparecem verdadeiros adversários que já pensam como matá-lo (Mc 3,6). O medo dos discípulos, então, não é somente o da tempestade; é, antes, o de morrer com Jesus e, sabemos, que esse medo os acompanhará até o final, quando fugirão todos na hora da cruz (Mc 14,30). No entanto Jesus “dorme”, ou seja, parece despreocupado, ausente. Será? Talvez esse era o pensamento das primeiras comunidades quando foi escrito o evangelho de Marcos. Há momentos de provação e dificuldades pessoais e comunitárias, nos quais nós também duvidamos da promessa de Jesus de estar conosco, todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 28,20). Depende de como entendemos a presença de Jesus no meio de nós, presença garantida, também, com o dom do Espírito Santo, porque é aí que nós podemos entender melhor. Com certeza, nós gostaríamos que o Senhor atendesse imediatamente os nossos pedidos e, assim, resolvesse todos os nossos problemas, quem sabe, podendo ser nós a dormir tranquilamente, cobrando tudo dele. Não é bem assim. Desde o início daquela que chamamos “história da salvação”, Deus chamou homens e mulheres para colaborar com ele. Alguns obedeceram e fizeram coisas prodigiosas, outros menos, outros, infelizmente, desobedeceram. Igualmente fez Jesus quando anunciou a chegada do Reino e, mais ainda, após sua morte e ressurreição. Sempre ele irá se servir da nossa pobre colaboração, sempre saberá chamar e inspirar alguém para ajudar, também se passando por momentos de martírio e de necessária conversão. Em lugar de cultivar dúvidas, precisamos vencer o medo, crescer na confiança e na certeza de que ele está sempre conosco, sobretudo no sofrimento e nas provações. Devemos colocar na conta do Reino, além do cêntuplo, também violência e perseguições (Mc 10,30). Se a Coragem e a Vontade juntas venceram o Medo, mais ainda, isso acontecerá somando a força e a luz da Fé.
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Cinco mil anos
“No túmulo de um dos antigos faraós do Egito encontraram um punhado de grãos de trigo. Eram velhos de cinco mil anos. Alguém pegou um daqueles grãos, o plantou e o regou. Com grande surpresa de todos, a semente estava viva e brotou. Depois de cinco mil anos.”
Sabemos que o evangelho de Marcos é o mais curto dos quatro evangelhos. Apesar de dizer que Jesus ensinava e explicava, não encontramos muitos discursos ou palavras dele. Significa que devem ser mais o agir dele e as diversas situações que ajudam a reconhecer a chegada do Reino de Deus e, assim, acreditar naquele que o está anunciando e o mostrando presente. No evangelho do Décimo Primeiro Domingo do Tempo Comum, encontramos duas parábolas de Jesus com as quais ele apresenta a surpreendente realidade do Reino de Deus. A primeira parábola é própria do evangelista Marcos. Ela continua a apresentar a imagem da semente, como na bem conhecida parábola do semeador, mas com mais detalhes e uma belíssima novidade. De fato, o agricultor semeia, mas depois “vai dormir e acorda”, ou seja, os dias vão passando e “a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece”. A parábola segue com a descrição das etapas do crescimento da espiga, dos grãos que enchem a espiga, até a colheita. “A terra, por si mesma, produz o fruto”, eis um dos segredos do Reino de Deus: o agricultor não sabe como, mas existe uma força que, “por si mesma”, faz crescer a semente. Indiretamente, a parábola faz uma grande afirmação: o Reino de Deus cresce porque é “de Deus” e não pode não crescer. Essa consideração serve de introdução da segunda parábola, a da semente de mostarda que é bem pequena e, por isso, pode deixar dúvidas sobre a sua efetiva possibilidade de crescimento. No entanto, daquela sementinha surgirá uma grande “hortaliça”, capaz de abrigar os pássaros à sua sombra.
O anúncio do início e, portanto, da presença do Reino de Deus é a grande novidade de Jesus (Mt 4,17;Lc 17,21). Ela foi também a causa de inúmeras críticas e mal-entendidos. Aqueles que aguardavam um reino de poder e dominação ficaram decepcionados. Igualmente, aqueles que esperavam um reino somente de puros e rigorosos seguidores da Lei não suportaram a liberdade de Jesus a respeito da própria Lei e a sua misericórdia com os enfermos que curava e com os pecadores que perdoava. As parábolas de Jesus sobre o Reino servem para esvaziar – se podemos dizer assim – as falsas expectativas e, ao mesmo tempo, para abrir os novos e maravilhosos horizontes desse Reino. Basta lembrar a ousadia da primeira das bem-aventuranças que, em Lucas, reza assim: “Bem-aventurados vós, os pobres, pois vosso é o Reino de Deus!” (Lc 6,20). Jesus surpreendeu a todos e ainda hoje a dinâmica do Reino é bem diferente dos esquemas que explicam o funcionamento e a eficiência das organizações simplesmente humanas. As duas parábolas do evangelho deste domingo, que têm como exemplo a semente, desafiam a lógica do planejamento, da previsibilidade e da eficácia tão privilegiada por aqueles que visam a garantia do lucro e não conhecem a potência da gratuidade e do amor. O Reino de Deus tem uma “força” que o faz crescer, porque é, acima de tudo e muito além do esforço humano, um dom. Isso não significa que não haja, também, a nossa pequena colaboração, mas essa deveria ser mais no sentido da generosidade e da confiança que dos cálculos e da organização. Todo “presente” é mais bonito, quando supera as nossas expectativas e nos deixa encantados! O pequeno grão de mostarda, que se torna grande hortaliça, é também sinal de um Reino aberto e acolhedor. Os ramos com a sua “sombra” oferecem abrigo e descanso para quem precisar sem discriminações ou exclusões. Se depois imaginamos a alegria dos pássaros cantando, melhor ainda fica a imagem daquele crescimento inesperado. Deveríamos arriscar e confiar mais na “força” do Reino. Se os grãos do tempo dos faraós brotaram, por que duvidar das “sementes” do Reino de Deus semeadas em nossas vidas desde o dia do nosso Batismo?
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